domingo, 22 de junho de 2014

Interpretação de texto



Para responder às questões de 01 a 07, leia o texto abaixo.


Essa mocidade de hoje...

Realmente não está fácil  educar filhos hoje em dia.  Não ouvem nossos conselhos e seguem caminhos estranhos, geralmente perigosos.  Coisas do  fim de século,  explicam.    Meu filho mais velho, por  exemplo.
Deu de cheirar. Não entendo onde pegou esse vício terrível. Acredito que foi na leitura de velhos romances portugueses, ele, um apaixonado por primeiras edições.
Minha mulher o defende. Diz que não faz mal. Brigamos muito por causa disso. Um cunhado, médico, também assegura que não prejudica a saúde. É quando muito um mal social, insiste.  Pode até ser,  concordo, afinal milhares de jovens estão fazendo o mesmo em todo o mundo, mas quem agüenta uma pessoa espirrando o tempo todo? Até nas igrejas ele abre sua caixa (que não sei como chama) e aspira o rapé. Tento proibir:
– Meu filho, você vive molhando os outros,   pregando   sustos,   irritando.   Abandone esse vício espalhafatoso, incômodo. Seria melhor fumar charuto.
Ele nem liga, sempre espirrando,   em conduções,  velórios,  conferências,   teatros,   em  toda parte.  Não consegue se livrar desse pó maldito. É um dependente. Quando vai pedir emprego, para desinibir, cheira.
– Estou me apresentando para... atchim!.
– O senhor está resfriado?
– Não. – Atchim, atchim, atchim etc.
Sai, claro, desempregado como entrou. Espirro não é forma de comunicação, não é argumento, não vale como currículo.
Apaixonou-se e  foi   pedir   a  mão   da  moça   em  casamento.  Disseram-me que  foram  onze   atchins consecutivos. Uns altos, outros baixos, uns fragmentados, outros explosivos, mas tudo muito monótono. O futuro sogro até que se conteve a princípio, mas quando o viu tirar automaticamente do bolso a caixa de rapé, perguntou:
– O senhor é viciado nisso?
– Sou – ele confessou de cabeça baixa.
E o sogro disse não.
Outro filho meu também está se desviando. Evita pais e parentes. Não gosta de estudar, de ler, mora no mundo da Lua. Noite alta, salta a janela de casa e desaparece. Descobrimos isso e o forçamos a contar o que faz na rua até madrugada.  Negou-se peremptoriamente.  Ameaçou até suicidar-se com gás se  insistíssemos.
Mas não recuamos e procuramos descobrir o que leva esse insensato a sumir dessa maneira.
– Pra mim tem música nisso – suspeitou a mãe.
– Música? É, pode ser – admiti. – Ele anda tão alheio a tudo...
Tinha razão. Descobrimos. O maroto anda fazendo serenata! Meu filho, seresteiro! Comprou um violão às   escondidas!  Agora   vive   fazendo barulho  ao pé  de   janelas,  nas  madrugadas,  despertando pessoas   que precisam acordar cedo para o trabalho. E exposto alucinado ao sereno, à garoa, ao chuvisqueiro, que tão mal fazem aos pulmões. Muitos seresteiros, sabe-se, morrem de pneumonia, isso quando – eles que se cuidem – não são abatidos por tiros de garrucha por pais, irmãos e namorados das moças que pretendem agradar. Ou mesmo por vizinhos furiosos. As gazetas sempre trazem casos assim.
E por   fim  tem o menorzinho.  Esse   se viciou nessa   tal  de   lanterna  mágica.  Conhecem,  não?  Chegou recentemente da Europa e está à venda nas lojas do centro. É um aparelho óptico que amplia e projeta imagens iluminadas.  O menino  fica numa sala escura com amiguinhos  o dia  inteiro vendo essas   imagens.   Jaulas  de macacos, parques de diversões, trens, balões, banquetes, caras de reis e navios. Imagens coloridas que parecem ter dimensões e movimento. A impressão é que os garotos esquecem o lar, se afastam do mundo, rompem com a realidade.  Podem  imaginar uma coisa assim? O aparelho causa hipnose,  fixação mórbida,   idiotiza,  e talvez possa cegar.  Li  que a  lanterna mágica,  projetando cerca de dez  imagens por  minuto,  acaba causando sérias perturbações no cérebro dos jovens, levando inclusive ao enlouquecimento. Sim, ao enlouquecimento!
Pó que vicia, ritmos anti-sociais, máquinas diabólicas. Caluda!
Este fim de século ameaça destruir nossos jovens.
São Paulo de Piratininga, 1893.

REY, Marcos. Essa mocidade de hoje... In: O coração roubado e outras crônicas. São Paulo: Ática, 2003, p. 50-53. (Para Gostar de Ler, v. 19)
01(UFPB-2010). O  texto “Essa  mocidade   de   hoje...”  tematiza  a  dificuldade de  se  educar  os   jovens  do  século XIX.  Segundo o narrador, essa dificuldade decorre da

a) autoridade descabida dos pais que cerceiam a liberdade dos filhos.
b) autonomia dos jovens que se mostram alheios aos ensinamentos dos pais.
c) falta de liberdade dos jovens para escolherem os seus caminhos na vida.
d) tolerância excessiva das mães que sempre defendem as atitudes dos filhos.
e) influência negativa dos amigos sobre o comportamento desses jovens.

02. (UFPB-2010) Considerando o ponto de vista do narrador em relação ao comportamento do filho mais velho,  no primeiro parágrafo, é correto afirmar:

a) O comportamento do filho não causa estranhamento aos pais,  visto que suas atitudes são “coisas do fim do  século, [...]”.
b) A Literatura desvirtua todos os jovens, levando-os à prática de atos estranhos.
c) A leitura de “velhos romances portugueses” aparece como vilã, por ter incitado o filho mais velho a um vício.
d) O narrador não se ressente do comportamento do filho – “Deu de cheirar” –, por entender que isso é normal entre jovens.
e) A Literatura, de modo geral, não é aconselhável para os jovens, porque estimula a desobediência aos pais.

03. (UFPB-2010) No  fragmento  “O  maroto  anda   fazendo   serenata!”   (linha   31),  o  termo destacado pode   ser  substituído,   sem alteração de sentido, por:

a) tratante
b) astuto
c) velhaco
d) preguiçoso
e) mentiroso

04. (UFPB-2010) No   segundo   parágrafo,   os   elementos   de   coesão   textual   destacados      “o”,   “disso”,   “ele”      referem-se, respectivamente, a:



ATENÇÃO: Julgue em (V) para as verdadeiras e (F) para as falsas, as questões de 05 a  07.

05. (UFPB-2010) No primeiro parágrafo, o emprego de determinadas palavras sugere o modo como o narrador se relaciona com os fatos narrados. Considerando esse aspecto, identifique as afirmativas corretas:

(     )O termo Realmente (linha 1) revela a convicção do narrador acerca da dificuldade de  educar os filhos.
(     )O termo geralmente (linha 2) sugere que o narrador julga perigosos todos os caminhos que os filhos seguem.
(     )A   forma   verbal  explicam  (linha 2),   na   terceira   pessoa   do   plural,   indica   que   o   narrador   atribui   a responsabilidade por aquilo que diz a outras pessoas.
(     )Os adjetivos  estranhos  (linha 2),  perigosos  (linha 2) e terrível  (linha 3) expressam, gradativamente, a seriedade com que o narrador trata o problema.
(     )A forma verbal acredito (linha 3), na primeira pessoa do singular, expressa o julgamento do narrador acerca
do motivo que levou o filho ao vício.

06. (UFPB-2010) Considerando o modo como o narrador conduz o relato, identifique as afirmativas corretas:
(     ) Recorre a sequências narrativas para justificar a sua opinião acerca da educação dos  filhos.
(     ) Faz uso de expressões próprias da língua falada.
(     ) Utiliza-se do discurso direto para dar mais expressividade à sua narração.
(     ) Estabelece diálogo com seu leitor, sobretudo, através de frases interrogativas.
(     ) Limita-se a narrar os fatos, sem emitir juízo de valor.

07. (UFPB-2010) Com relação ao gênero desse texto, identifique as afirmativas corretas:
(     ) Trata-se de uma crônica  jornalística cuja  intenção é  informar o  leitor acerca das atitudes dos  jovens do século XIX.
(     ) É um conto literário cuja narrativa apresenta os fatos em ordem cronológica.
(     ) Constitui uma crônica literária com   narrador em primeira pessoa, apresentando seu ponto de vista sobre a educação dos filhos.
(     )Trata-se de um artigo de opinião, em que o narrador dispensa os recursos literários.
(     )É uma crônica literária em que o narrador aborda uma problemática ainda atual nos dias de hoje.

08. (PSS/UFPA-2006) Os gêneros literários constituem modelos aos quais se deve submeter a criação artística.
Deles NÃO se deve considerar como verdadeiro:

(A) Segundo concepção clássica, são três os gêneros literários.
(B)  Embora a obra literária possa encerrar emoções diversas, podendo haver intersecção de
elementos líricos, narrativos e dramáticos, há sempre a prevalência de uma destas modalidades.
(C) A criação poética, de caráter lírico, privilegiará os diálogos dos personagens.
(D) Novelas, crônicas, romances e contos são espécies literárias de caráter narrativo.
(E)  O discurso literário é considerado dramático quando permite, em princípio, ser
representado.


09 (PRISE/UEPA-2006) Assinale a alternativa que  indica corretamente os gêneros literários dos
textos abaixo relacionados, na seqüência em que estão dispostos:

I- “O Dr. Mamede, o mais ilustre e o mais eminente dos alienistas, havia pedido a três de seus colegas e a quatro sábios que se ocupavam de ciências naturais, que viessem passar uma hora na  casa de saúde por ele dirigida para que lhes pudesse mostrar um de seus pacientes.”  (Guy de Maupassant)

II- “Todas as noites o sono nos atira da beira de um cais
E ficamos repousando no fundo do mar.
O mar onde tudo recomeça...
Onde tudo se refaz...
Até que, um dia, nós criaremos asas.
E andaremos no ar como se anda na terra.”
(Mário Quintana)

III- Oh! Que famintos beijos na floresta!
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vênus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.
(Luiz de Camões)
 
IV- ‘Velha: E o lavrar, Isabel?
Isabel: Faz a moça mui mal feita,
            corcovada, contrafeita,
            de feição de meio anel;
            e faz muito mau carão,
            e mau costume d’olhar.
Velha:  Hui! Pois jeita-te ao fiar
             Estopa ou linho ou algodão;
             Ou tecer, se vem à mão.
Isabel:  Isso é pior que lavrar.”

(Gil Vicente)  

Glossário:
Lavrar: costurar.
De feição de meio anel: de rosto emoldurado por (cabelo) cachos cortados pela metade.
Carão: cara, semblante.
Hui! Pois jeita-te: Pois te acostuma.

a) Narrativo – Épico – Lírico – Dramático.
b) Dramático – Lírico – Épico – Narrativo
c) Narrativo – Lírico – Épico – Dramático
d) Dramático – Épico – Narrativo – Lírico
e) Épico – Dramático – Narrativo – Lírico


10.

a) Quais os tipos de texto presentes no texto acima?
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b) Qual nome do gênero em questão?

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c) Aparece, no texto, a ironia. Identifique-a o explique seu funcionamento.

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