domingo, 22 de junho de 2014

Material 2º ano Literatura Brasileira



LITERATURA BRASILEIRA

ROMANTISMO

1. I. Preferência pela realidade exterior sobre a interior.
II. Anteposição da fé à razão, com valorização da mística e da intuição.
III. Poesia descritiva de representação dos fenômenos da natureza. Detalhismo.
IV. Gosto pelo pitoresco, pela descrição de ambientes exóticos.
V. Atenção do escritor aos detalhes para retratar fielmente o que descreve.
Características gerais do Romantismo se acham expressas nas proposições:
II e IV 
II e III 
I e IV 
II e V 

2. Não é próprio do Romantismo:
Explorar assuntos nacionais como história, tradições, folclore; 
Idealizar a mulher, tornando-a perfeita em todos os sentidos; 
Explorar assuntos ligados à antigüidade clássica, imitando-lhe os poetas e prosadores; 
Valorizar temas fúnebres e soturnos. 

3. De acordo com a posição romântica, é correto afirmar que:
A natureza é expressiva no Romantismo e decorativa no Arcadismo. 
Com a liberdade criadora implantada no Romantismo, as regras fixas do Classicismo caem e "o poema começa onde começa a inspiração e termina onde termina esta". 
A visão do mundo romântica é centrada no sujeito, no "eu" do escritor, daí a predominância da função emotiva na linguagem do Romantismo. 
Todas as alternativas anteriores estão corretas. 

4. Poderíamos sintetizar uma das características do Romantismo pela seguinte aproximação de opostos:
Cultivando o passado, procurou formas de compreender e explicar o presente. 
Pregando a liberdade formal, manteve-se preso aos modelos legados pelos clássicos. 
Embora marcado por tendências liberais, opôs-se ao nacionalismo político. 
Voltado para temas nacionalistas, desinteressou-se do elemento exótico, considerando-o incompatível com exaltação da pátria. 
5. A visão do mundo, nostálgica nos românticos, explica-se:
Pelas inúmeras guerras havidas na época do Romantismo. 
Pela inadaptação aos valores absolutistas implantados pela monarquia brasileira. 
Pelo descontentamento da nobreza, que deixa o poder, e de parte da burguesia, que ainda não havia assumido ou que tivesse ficado à margem dele. 
Pela contemplação de um Brasil conservador, baseado no latifúndio, no escravismo e na monarquia. 
6. "Deus! Oh, Deus! Onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu'estrelas tu t'escondes Embuçado no céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, Que embalde desde então corre o infinito... Onde estás, senhor Deus?..."
Esta é a primeira estrofe de um poema que é exemplo de:
Lirismo subjetivo, marcado pelo desespero do pecador arrependido. 
Lirismo religioso, exprimindo o anseio da alma humana em procura da divindade. 
Lirismo romântico de tema político-social, exprimindo o anseio do homem pela liberdade. 
Romantismo nacionalista repassado da saudade que atormenta o poeta do exílio. 
7. Assinale a alternativa que traz apenas características do Romantismo:
idealismo, religiosidade, objetividade, escapismo, temas pagãos. 
predomínio do sentimento, liberdade criadora, temas cristãos, natureza convencional, valores absolutos. 
egocentrismo, predomínio da poesia lírica, relativismo, insatisfação, idealismo. 
idealismo, insatisfação, escapismo, natureza convencional, objetividade. 
8. UM ÍNDIO
    "um índio descerá de uma estrela colorida brilhante
    de uma estrela que virá numa velocidade estonteante
    e pousará no coração do hemisfério sul na américa
    num claro instante
    (...)
    virá
    impávido que nem muhammad ali
    virá que eu vi
    apaixonadamente como peri
    virá que eu vi
    tranqüilo e infalível como bruce lee
    virá que eu vi
    o aché do afoxé filhos de ghandi virá"
    (Caetano Veloso)
O trecho anterior mostra, com uma visão contemporânea, determinado tipo de tratamento dado ao índio brasileiro em certo período de nossa literatura. Assinale a alternativa em que aparecem os nomes de dois autores que manifestaram tal tendência.
Gonçalves de Magalhães e Álvares de Azevedo 
Castro Alves e Tobias Barreto 
Fagundes Varella e Visconde de Taunay 
Gonçalves Dias e José de Alencar. 
9. "A verdadeira poesia deve inspirar-se num entusiasmo natural e exprimir-se com naturalidade, sendo simples, pastoril, bucolicamente ingênua e inocente."
Esta afirmação caracteriza a estética __________ uma vez que exalta elementos ligados à _________, opondo-se ao culto do interior que identifica o ___________.
As lacunas acima deverão ser preenchidas, respectivamente, com os termos:
romântica, natureza, Simbolismo 
árcade, civilização, Romantismo 
parnasiana, estética, Arcadismo 
árcade, natureza, Romantismo 
10. Machado de Assis representa a transição entre:
Arcadismo e Romantismo 
Barroco e Romantismo 
Romantismo e Realismo 
Parnasianismo e Simbolismo 
11. "Quantas coisas (...) brotam ainda hoje, modas, bailes, livros, painéis, primores de toda casta, que amanhã já são pó ou cisco? Em um tempo em que não mais se pode ler, pois o ímpeto da vida mal consente folhear o livro, que à noite deixou de ser novidade e caiu na voga; no meio desse turbilhão que nos arrasta, que vinha fazer uma obra séria e refletida? Perca pois a crítica esse costume em que está de exigir, em cada romance que lhe dão, um poema."
As proposições anteriores, de José de Alencar, fazem alusão a um problema característico do movimento romântico. Aponte-o:
o movimento romântico, afeito ao lirismo e á sentimentalidade, busca realizar uma prosa fundamentalmente impregnada de valores poéticos 
o autor preocupa-se com satisfazer o gosto de um público pouco exigente no que diz respeito a obras de acabamento literário mais sofisticado 
tendo em vista a caracterização da sociedade burguesa, o romance deve conter preferencialmente ação, que seja o retrato dos agitados tempos modernos 
o autor, já que se reconhece gênio, e pelo público, é aceito como tal e deve nortear as multidões que o lêem com sua palavra sábia e simples 
O texto seguinte refere-se às questões 12 e 13.
"O problema da nacionalidade literária foi colocado, dentro da atmosfera do Romantismo, em termos essencialmente políticos. Misturadas literatura e política, a autonomia política transferia-se para literatura, e confundiram-se independência política e independência literária."
12. Segundo o texto, para os românticos:
a autonomia política e a autonomia literária foram duas faces de um mesmo processo de emancipação 
autonomia política e autonomia literária mantiveram entre si uma relação de causa e efeito 
a autonomia literária sempre se seguiu à emancipação política 
emancipação política e emancipação literária foram processos que se concretizaram independentemente um do outro 
13. Segundo o texto:
Romantismo foi uma escola literária de atmosfera essencialmente política 
no Romantismo, literatura e política interpenetram-se e exercem influência mútua, numa interdependência dialética 
pode-se dizer que a política usou a literatura em suas campanhas, mas o inverso não é válido, pois a literatura não se valeu da política 
independência política e independência literária são fenômenos distintos, que só se misturam em conseqüência de um erro de interpretação 
14. A proposta de divisão dos romances alencarianos baseia-se num critério:
cronológico 
temático 
estilístico 
geográfico 
15. Assinale o poema de Gonçalves Dias que não apresenta a temática indianista:
Ainda uma vez - Adeus 
I-Juca Pirama 
Marabá 
Leito de Folhas Verdes 
16. O lirismo social da poesia de Castro Alves:
tematiza a liberdade dentro, principalmente, de um enfoque individualista 
tematiza a liberdade exclusivamente referenciada ao negro escravizado 
tematiza a liberdade tanto com um enfoque individualista como coletivo; e, em especial, referenciada ao negro escravizado 
tematizava a liberdade de modo geral, e apenas acidentalmente referenciada ao negro escravizado 
17. Poema castro-alivino que não aborda a temática social:
O Livro e a América 
Vozes d’África 
Ode ao Dous de Julho 
n.d.a 
18. Qual a alternativa que apresenta grupos de classificação dos romances alencarianos?
urbanos, indianistas, históricos e regionalistas 
urbanos, indianistas, históricos e psicológicos 
urbanos, indianistas, psicológicos e satíricos 
urbanos, históricos, psicológicos e trágicos 
19. Assinale a alternativa falsa. O Romantismo:
procura o elemento nacional 
propõe ruptura com o passado 
foi introduzido no Brasil por Gonçalves de Magalhães 
é a valorização do que é "nosso" 

REALISMO – NATURALISMO
1. O romance realista apresenta suas características específicas, definidoras das tendências da época e da escola literária. É possível, entre aquelas, apontar o fato de que ele:
analisa pormenorizadamente as vicissitudes das personagens que viveram um drama histórico, espelho da realidade da nação. 
se constrói em torno da análise dos caracteres, equacionados com a visão mais profunda de sua realidade interior e de sua fisionomia moral. 
dá relevo à paisagem social e física em que se passa a história, constituindo-se o conjunto uma crônica amena dos costumes da época. 
procura retratar os ambientes, considerando desnecessária a análise psicológica das personagens e das motivações internas de seus atos. 
2. Ao escritor realista interessam, sobretudo, os conflitos:
universais, que espelham os problemas humanos desvinculados das relações possíveis com o momento histórico. 
de natureza individualizadora, que permite aprofundar a análise psicológica dos personagens. 
que permitem à obra tornar-se politicamente combativa e comprometida. 
originários da relação do homem com seu meio ambiente. 
3. Os escritores realistas e naturalistas, preocupados com as causas, determinam o comportamento do homem, criam, no mais das vezes, personagens:
cujas ações e psicologia são determinadas por forças atávicas e sociais. 
de personalidade firme, cujo comportamento diante da vida não decorre de postura subjetiva. 
lúcidas o suficiente para perceberem, através de constante autocrítica, as raízes e causas dos erros que cometem. 
cujo comportamento é invarialmente patológico, em decorrência de optarem sempre pela marginalidade. 
4. Memórias Póstumas de Brás Cubas é considerado o romance divisor de águas da obra machadiana, porque, a partir dele, o autor:
assume de vez a visão da realidade, apenas esboçada nos romances da chamada primeira fase. 
se insere na estética naturalista, ao denunciar as mazelas sociais, os casos psicológicos patalógicos e os aspectos mais repugnantes da realidade. 
antecede as conquistas modernistas, com uma postura crítica diante da civilização industrial e uma atitude de denúncia das misérias do mundo rural. 
desmitifica as idealizações românticas e assume uma visão crítica que, despindo as aparências que encobrem a realidade, busca as razões últimas das ações humanas. 
5. Assinale a alternativa falsa a respeito de O Cortiço.
várias personagens exemplificam as teses do romance naturalista 
na obra narram-se aspectos da vida coletiva 
as personagens têm, geralmente, grande profundidade psicológica 
Miranda e João Romão representam um contraste social 
6. As preocupações científicas do Naturalismo orientam-no a:
ocupar-se de aspectos patológicos da conduta humana, tais como taras, desvios, miséria externa, desequilíbrios psicológicos. 
fazer que a literatura despreze a participação das emoções na urdidura da trama narrativa. 
contemplar seguidamente os fenômenos naturais e buscar o sentido do universo em uma ordem cósmica e universal. 
copiar a natureza tal e qual os sentidos, a razão e a intuição permitem apreendê-la. 
7. Qual destas afirmações não se aplica a uma classificação de Dom Casmurro como romance?
de costumes 
urbano 
psicológico 
memorialista 
8. Foi no romance ____________ que Aluísio Azevedo atinou de fato com a fórmula que se ajustou ao seu talento. Não montou um enredo em função de pessoas, mas de cenas coletivas de tipos psicologicamente primários:
O Homem 
A Mortalha de Alzira 
Uma Lágrima de Mulher 
O Cortiço 
9. O melhor romance de Aluísio Azevedo tem, como tema, uma habitação coletiva fluminense (favela) nos fins do século XIX e por personagem principal João Romão. Este romance é:
Casa de Pensão 
O Coruja 
O Cortiço 
O Mulato 
10. Nasceu no Maranhão em 1857 e morreu em Buenos Aires, em 1913. Foi caricaturista, romancista, teatrólogo, diplomata. Projetou-se em 1881, quando publicou O Mulato, primeiro romance naturalista da literatura brasileira; um romance de tese, no qual analisa a marginalidade do mulato brasileiro. O autor a que se refere o texto é:
Aluísio Azevedo 
Raul Pompéia 
Álvares de Azevedo 
Júlio Ribeiro 
11. Capitu revela um sentimento inconfessável pelo defunto, diverso da piedade e do amor ao próximo. O marido, narrador obcecado pela esposa, observa-lhe todos os gestos e desvenda neles:
o assassinato 
o ciúme patológico de Capitu 
o adultério 
o amor entre Sancha e Capitu 
12. Examine as frases abaixo:
        I.   Os representantes do Naturalismo fazem aparecer nas suas obras
             dimensões metafísicas do homem, passando a encará-lo como um
             complexo social examinado à luz da psicologia.
        II.  No Naturalismo as tentativas de submeter o homem a leis
             determinadas são conseqüências da aplicação, à literatura, do
             experimentalismo, que caracterizou as tendências das ciências,
             na segunda metade do século XIX.
        III. Na seleção de casos a serem enfocados, os naturalistas
             demonstraram aversão pelo anormal e o patológico.
Pode se dizer corretamente que:
só a I está correta. 
só a II está correta. 
só a III está correta. 
existem duas corretas. 
13. Qual a alternativa que contém todas as características do romance naturalista enumeradas neste conjunto?
1. vulgaridade; 2. atmosfera de sonho; 3. idealização do herói; 4. cientificismo; 5. espírito de aventura; 6. contemporaneidade; 7. predomínio da observação; 8. narrativa lenta, em prosa; 9. o homem enquanto indivíduo; 10.concepção mecanicista do mundo.
3, 4, 6, 7, 9, 10 
1, 4, 5 , 7, 9, 10 
3, 4, 7, 8, 9, 10 
1, 4, 6, 7, 8, 10 
14. Associe:
        1. O Mulato
        2. A Carne
        3. A Normalista
        4. Dom Casmurro
       
        ( )   Machado de Assis
        ( )   Adolfo Caminha
        ( )   Júlio Ribeiro
        ( )   Aluísio Azevedo
4, 3, 2, 1 
4, 3, 1, 2 
3, 4, 2, 1 
n. d. a. 
15. Assinale a alternativa em que está incorreta a relação autor-obra-personagem:
Manuel Antônio de Almeida - Memórias de um sargento de Milícias - Leonardo 
Joaquim Manuel de Macedo - A Moreninha - Carolina 
Raul Pompéia - O Ateneu - Carlos 
Aluísio Azevedo - O Cortiço - João Romão 

 (Fragmento do Capítulo I, em que é narrada a relação entre Miranda e sua esposa Estela)
         "Odiavam-se.  Cada qual sentia pelo outro um profundo desprezo, que pouco a pouco se foi transformando em repugnância completa.  O nascimento de Zulmira veio agravar ainda mais a situação; a pobre criança , em vez de servir de elo aos dois infelizes, foi antes um novo isolador que se estabeleceu entre eles. Estela emava-a menos do que lhe pedia o instinto materno por supô-la filha do marido, e este a detestava porque tinha convicção de não ser seu pai. 
        Uma bela noite, porém, o Miranda, que era homem de sangue esperto e orçava então pelos seus trinta e cinco anos, sentiu-se em insuportável estado de lubricidade."
(Aluísio Azevedo)
16) Analise a relação vivida entre os personagens apontados neste fragmento da obra O Cortiço. Por que podemos caracterizá-los como personagens realistas?
17) Compare a relação amorosa na estética realista -naturalista com o romantismo. Aponte as diferenças das escolas lierárias com referência ao amor. 

18)  (UE-BA)  A respeito da ficção de Machado de Assis, pode-se afirmar que: 
a) se desenvolveu do Romantismo para o Naturalismo, consagrando-se sobretudo nas crônicas políticas e nos contos satíricos; 
b) amadureceu sob a influência de José de Alencar, de quem tomou os temas e o estilo, tal como se vê em Quincas Borba; 
c) é exemplo típico da literatura naturalista, sendo apenas superada pela obra prima  O Cortiço, de seu mestre Aluísío de Azevedo. 
d) representa a conquista da maturidade da literatura nacional a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas. 
e) atingiu com Ressurreição e A Mão e a Luva o plano mais alto de nossa literatura de expressão realista.
19)  (FCC-BA) Memórias Póstumas de Brás Cubas é considerado romance divisor de águas da obra machadiana porque, a partir dele, o autor: 
a) assume de vez a visão romântica da realidade, apenas esboçada nos romances da chamada primeira fase. 
b) se insere na estética naturalista, ao denunciar as mazelas sociais, os casos patológicos e os aspectos mais repugnantes da sociedade. 
c) procede a uma retificação da própria obra, através da voz de personagens por meio das quais renega os valores da primeira fase. 
d) antecede as conquistas modernistas, com uma postura crítica diante da civilização industrial e uma atitude de denúncia das misérias do mundo real. 
e) desmitifica as idealizações românticas e assume uma visão crítica que, despindo as aparências que encobrem a realidade, busca as razões últimas das ações humanas.
20) (UF-MG)  Todas  as afirmações sobre Dom Casmurro, de Machado de Assis, estão certas, exceto: 
a) O discurso em primeira pessoa favorece o clima de dúvida que paira sobre o adultério de Capitu, pois o que prevalece na narrativa são as impressões de Bentinho, o narrador. 
b) Além da semelhança de Ezequiel com Escobar, outro fator acentua a dúvida de Bentinho, sobre a paternidade do filho: a capacidade de dissimulação de Capitu. 
c) O adultério, núcleo da narrativa, é um pretexto para se discorrer sobre a existência humana, subordinada ao poder desinte-grador do tempo, que atua de forma irreversível sobre todas as coisas. 
d)  A alegoria do temor italiano, que apresenta a vida como uma ópera composta por Deus e pelo Diabo, projeta-se em todo o romance, mostrando que, na luta entre as virtudes e os vícios, o Bem sempre triunfa. 
e) Ao tentar reproduzir no Engenho Novo a casa em que se havia criado  na antiga rua de Mata-cavalos, ou ao escrever suas memórias, Dom Casmurro tenta reconstruir o passado, logrando invocar-lhe as imagens e não as sensações.
21) (UC-MG) Das afirmações abaixo, a respeito de Machado de Assis, a única falsa é: 
a) a ironia e o humor são grandes suportes de sustentação de sua obra. 
b) como ficcionista, dá grande ênfase à psicologia de suas  personagens. 
c) normalmente, suas personagens são tratadas com severo rigor crítico. 
d) sua narrativa sempre focaliza o ambiente urbano do Rio de Janeiro. 
e) seus romances estão marcados pela preocupação com a ação e o episódio. 
 
TEXTOS DE APOIO PARA DISCUSSÃO:
MEMÓRIAS POSTUMAS DE BRÁS CUBAS
O romance é narrado em primeira pessoa por seu defunto-autor, ou seja, um narrador já falecido, chamado Brás Cubas.
“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórías Póstu-mas”.  Com essa mensagem ínicial, Brás Cubas mostra ao leitor que já não é mais coisa alguma, que não existe mais e que, assim, está livre para falar de sua vida, sem o ranço dos preconceitos. Fala do amor da juventude por uma prostituta de luxo chamada Marcela e da viagem que faz à Europa, com a finalidade de esquecê-la; do relacionamento mantido com a pobre Eugênia, defeituosa de uma perna e de classe social menos privilegiada; do noivado com Virgílía, que termina em fracasso, fazendo com que ele perca a ajuda política do pai da moça. Mostra que fora um perdedor em todos os sentidos, consumindo toda a fortuna de sua famílía.  Mais tarde, torna-se amante da ex-noiva, Virgília, então esposa de Lobo Neves, separando-se novamente dela depois. A noiva que sua irmã lhe arruma morre em uma epidemia. Entediado, une-se a Quincas Borba e interessa-se pela “teoria do Humanitismo.”
Tenta, por fim, tornar-se célebre e cria um emplastro que serve para curar a hipo-condria. Acaba tomando uma chuva, que o leva à pneumonia e à morte. Morto, começa a rever sua vida e a escrever sobre ela e isto marca o início do romance. 
 
DOM CASMURRO
      Bentinho é destinado, pela mãe, a ser padre, quando crescer D. Glória quer o filho religioso. O projeto não se realiza, pois o garoto se apaixona por Capitu ou Capitolina, sua vizinha. José Dias, um agregado da família de Bentinho, consegue conduzir as coisas, de forma que o menino não tenha que cumprir uma promessa que fora feita pela mãe. Acontece um longo namoro entre Bento e Capitu, até que ele conclui o curso de Direito. Escobar, um antigo colega na breve permanência no seminário, torna-se um amigo cada vez mais íntimo de Bentinho. Enquanto Bento e Capitu se casam, o mesmo ocorre,  entre Escobar e uma boa amiga de Capitu, Sancha. Tudo corre bem, até que Escobar morre afogado. No velório, Bentinho estranha a forma  como Capitu encara o cadáver, e passa a sentir um ciúme doentio dela. Lembra-se de que José Dias lhe falara, certa vez, dos olhos dela, dizendo-lhe que eram "olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. 
      Pensa em como são, também, olhos de ressaca, que tragam para dentro de si os que amam. O filho de ambos, para Bento, cada vez se parece mais com Escobar. O pai pensa até em matá-lo. Finalmente, o casal separa-se e Capitu vai com Ezequiel para a Europa.  Ela morre e o mesmo ocorre com o filho, depois de ter estado com o pai e partido novamente. Ben-tinho fecha-se em seu mundo e ganha a alcunha de “Casmurro”. O início do romance mostra, exatamente, o narrador em primeira pessoa, Bentinho/Dom Casmurro, tentando “atar as duas pontas da vida”, o passado e o presente, para “restaurar na velhice a adolescência” e rever o que efetivamente lhe acontecera. 
 
QUINCAS BORBA
        É um romance narrado em terceira pessoa e conta a história de Rubião, um professor humilde, do interior de Minas, que se torna o beneficiário da herança legada pelo filósofo Quincas Borba, o criador de uma doutrina chamada Humanitismo.  O envolvimento com o casal Cristiano e Sofia Palha leva Rubião à desagregação psicológica e financeira, devido a sua paixão por Sofia, que, em conluio com o marido, explora-o ao máximo.  Rubião, um homem bom, honesto e decente, não suporta as coisas que é obrigado a enfrentar e morre pobre e enlouquecido. Torna-se um  modelo nítido da teoria do Humanitismo. En-quanto vivo, acreditando ser Napoleão, no ápice de sua sandice, diz uma última frase: “Ao vencedor as batatas...”. Assim ele manda a mensagem que é o retrato da visão do Humanitismo.

ANÁLISE DOS LIVROS DO PSS II
QUINCAS BORBA


  Ao estudar a obra de Machado de Assis, a crítica divide-a em duas fases bem distintas cujo marco é o romance Memórias Póstumas de Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881. Até essa data, a obra machadiana é marcante romântica, e nela sobressai poesia, conto e romances como: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Pertencem à primeira fase todas essas obras.
      A partir de 1881, com a publicação de Memórias, Machado muda de tal forma que Lúcia Miguel Pereira chega a afirmar que “tal obra não podia Ter saído de tal homem”. A partir das Memórias, “Machado liberou o demônio interior e começa uma nova aventura”: a análise de caracteres, numa verdadeira dissecação da alma humana. É a segunda fase – fase marcadamente realista, sem a qual “não teríamos Machado de Assis”. Além de contos, poesia, teatro, crítica, integram essa fase os romances seguintes, entre os quais está o nosso QUINCAS BORBA: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1900), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), seu último romance. Toda essa obra é marcadamente realista, embora reconheçamos que um escritor da categoria de Machado de Assis não pode ficar preso às delimitações de um estilo de época: águias não se aprisionam – voam livremente pelas esferas celestes de onde, das estrelas, volvem os olhos aquilinos para a miséria decadente do planeta dos homens!
      Como já ficou situado, Quincas Borba se enquadra no estilo realista, o que procuraremos mostrar, a partir daqui, dando, é claro, os devidos descontos para o caso de Machado de Assis.
      ESTILO DE ÉPOCA
      Como você deve saber, a base cultural e histórica do Realismo é a ciência que dominou as atenções na Segunda metade do século XIX, chegando a adentrar o século . Varreu o mundo uma onda de materialismo, como o positivismo de Comte, o evolucionismo de Darwin, o psicologismo de Wundt, o determinismo de Taine, que alastra pelo espírito humano como uma verdadeira paixão. Nasce daí o gosto pela análise, objetividade, observação, fidelidade, impassibilidade, impessoalidade, etc. Em suma, a literatura preocupa-se em captar a realidade como ela é, formando-lhe um retrato fiel e preciso.
      Como é fácil perceber, Quincas Borba é um livro que se acha, cronologicamente, no estilo realista. Abaixo lembraremos algumas características que podem ser vistas no romance.
      FIDELIDADE NA DESCRIÇÃO DAS PERSONAGENS. Se o romântico, dando asa à sua fantasia e imaginação, impregna sua personagens de uma dimensão quase sobrenatural e idealista, o escritor realista faz exatamente o contrário: encara a realidade direta e objetivamente. Muitas vezes cientificamente, como é o caso das personagens naturalistas – verdadeiras cobaias dos experimentos científicos. Ao realista interessa o que é e não o que deve ser. Podemos afirmar , dando-se os devidos descontos, que as personagens realistas são autênticas criaturas de carne e osso que têm as virtudes e os defeitos do ser humano. O realista não idealiza a realidade, como faziam os românticos, mas pinta-a tal como ela se apresenta ante seus olhos: é um expectador que contempla de fora a realidade que o cerca. Assim são as personagens de Machado de Assis: Capitu, Sofia, Virgília, Quincas Borba, Brás Cubas, Rubião e tantas outras que povoam seus romances de contradições, misérias, desgraças, alegrias, virtudes, defeitos – enfim, de vida.
      ANÁLISE INTROSPECTIVA DAS PERSONAGENS. Incontestavelmente, o grande mestre da análise introspectiva, entre nós, numa verdadeira dissecação da alma humana, é Machado de Assis. A grande característica da sua obra de segunda fase – onde se enquadra Quincas Borba – é a análise de caracteres. Aí, para usar as palavras de Massaud Moisés, Machado de Assis revela “grande preocupação pela análise de caracteres e de situações de sondar o interior das personagens e das situações dramáticas, psicológicas, sociais, cômicas, etc.”- o que determina no caso de Machado de Assis, o processo “câmera lenta” usado pelo escritor na condução de sua obra. Daí Ter maior importância para o escritor a análise, ficando em segundo plano a intriga ou enredo do romance. É o que ocorre nas Memórias Póstumas de Brás Cubas. É o que ocorre também em Quincas Borba, onde, igualmente, o leitor “não achará o seu romance usual.” A grande preocupação de Machado no romance é em sondar a alma humana, em analisar-lhe os porquês das marchas e contramarchas. Observe-se que, no caso do Quincas Borba, a técnica machadiana é de sempre narrar um fato para depois analisá-lo.
      OBJETIVIDADE E IMPESSOALIDADE. De um modo geral, ao subjetivismo romântico opõe-se o objetivismo realista, pois aqui o escritor procura evitar sempre as emoções subjetivas, conduzindo a obra de maneira direta e objetiva. Assim, raramente o escritor realista interfere nos dramas vividos por suas personagens. São meros expectadores que, frios e impessoais, analisam esses dramas. É claro que, muitas vezes, alguma coisa fica do artista, pois a criatura sempre revela algum traço do seu criador. Embora dificilmente se retrate na sua obra, podemos afirmar com Viana Moog que, “ferido no seu orgulho pelo mal que o aflige (epilepsia), Machado de Assis vinga-se derramando sobre a humanidade a bílis do seu humour”. Daí a sua visão niilista e pessimista da vida onde só vê “insanidade e imperfeições imanentes.” É de ver-se também o que escreve Afrânio Coutinho, desenvolvendo a natureza objetiva e impessoal do movimento realista: “O Realismo encara a vida objetivamente. Não há intromissão do autor, que deixa as personagens e os circunstantes atuarem uns sobre os outros, na busca da solução. O autor não confunde seus sentimentos e pontos de vista com as emoções e motivos das personagens.” Embora não se aplique , cabalmente, esta característica na ficção de Machado de Assis, é possível entrever este espírito de precisão e de objetividade, de frieza e impessoalidade em Quincas Borba.
      NARRATIVA LENTA E PORMENORIZADA. Como já ressaltamos atrás, não interessa ao realista a ação, mas a análise das personagens, a sua sondagem psicológica. Deste modo, a narrativa realista é lenta e pormenorizada, cheia de paradas e vaivéns, ao contrário do romântico que se concentra mais na ação, na intriga que desenvolve. “Usam-se detalhes aparentemente insignificantes na pintura de personagens e ambientes. E esses detalhes devem ser reunidos e harmonizados, para dar a impressão da própria realidade”, ressalta Afrânio Coutinho.
      No caso de Quincas Borba, se comparado às Memórias Póstumas de Brás Cubas, podemos observar que os pormenores e reflexões que povoam este romance (as Memórias) são bem mais que naquele (Quincas Borba), pois, conforme Massaud Moisés, Machado de Assis “diligenciou por limpar o texto daquele excesso de reflexões morais e de interrupções no desenrolar das cenas, comuns no romance anterior (as Memórias). Parece que teve em mira de escrever um romance para ser lido e não ser analisado.” De qualquer modo, Quincas Borba não foge a essa norma do romance realista. Se não possui as interrupções e reflexões que caracterizam as Memórias, pelo menos não se pode dizer que Machado aqui ficou preso à história contada que “é trivial e comum, reduzindo-se a um adultério sonhado, desejado, preparado, que, afinal, não se consuma.” O romancista de Quincas Borba era bastante lúcido para não se perder em historinhas “água com açúcar” da farândola romântica.
      Assim, as reflexões, as paradas são constantes em Quincas Borba, como se podem ver no decorrer do romance.
      PREDOMINÂNCIA DO TEMPO PRESENTE. O Realismo retrata a vida contemporânea. Enquanto o romântico se volta ao passado ou se projeta no futuro, o realista se fixa no presente, porque o que lhe interessa é a vida que o rodeia. Deste modo, o escritor realista "encara o presente, nas minas, nos cortiços, nas cidades, nas fábricas, na política, nos negócios, nas relações conjugais, etc." Muitas vezes descambando para os aspectos degradantes e deprimentes da sociedade, como é o caso do romance naturalista de Aluísio Azevedo, O Cortiço.
      Sem se prender às delimitações de tempo e espaço, pode-se afirmar que Quincas Borba é obra perene e imune à ação corrosiva do tempo: "é uma grande sátira da vida, de seus ingredientes e de suas verdades.
      O matiz irônico reside no ser Quincas Borba uma peça única da chacota à Humanidade desenfreadamente presa a certos dogmas de superfície única de olhar mais a fundo no íntimo dos problemas. A ironia atinge a todos e só se salvam (caso consigam), os loucos, os mansos e os animais irracionais. Como sempre, Machado de Assis vê a Humanidade a correr doidamente em busca de prazeres fáceis e duma vida que só é opróbrio e alienação, embora com toda a fisionomia de verdade, porque aceita como convenção ou imperativo moral da sociedade", ressalta o crítico Massaud Moisés.
      ESTILO MACHADIANO
      PROCESSO LENTO E DETALHADO. Parece não haver melhor classificação do estilo de Machado de Assis do que traçado por ele mesmo nas memórias Póstumas de Brás Cubas, ao afirmar pela boca do defunto autor: "Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem..."
      Há muitas características que definem bem o estilo machadiano. Citaremos algumas no decorrer deste estudo serão apresentadas outras, também, muito importantes.
      Em Machado de Assis, o enredo não é o mais importante. A narrativa e o enredo estão subordinados aos estado de alma dos personagens.
      Os acontecimentos referidos não obedecem a uma ordem de causa e efeito. Você pode notar que não há uma preocupação em narrar uma estória, o importante é o tipo de reflexão, de pensamento que sugere o autor. Machado de Assis preocupa-se mais com o caráter dos personagens do que com a trama da narrativa ou a descrição de costumes.
      Como diz o próprio autor "o livro anda devagar" e "o meu estilo" é "como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param..." É mais ou menos assim que anda a narrativa de Quincas Borba.
      Às vezes, há antecipação, posposição ou intercorrência de acontecimentos, pela necessidade de desenvolvimento da narrativa, que ora se prende a um personagem, ora se liga a outro.
      HUMOR - IRONIA: O HUMANITISMO. O humor, como fenômeno literário, começou entre nós, a bem dizer, com as Memórias Póstumas de Brás Cubas. (Viana Moog).
      "Não se pode dizer que Machado de Assis tenha sido o maior dos humoristas do nosso tempo. Mas, se o calendário ainda tem algum sentido e significação, força é reconhecer que não há outro mais expressivo, por isso que foi o autor de Quincas Borba o primeiro a compreender toda a sua extensão, ainda sem meio dos deslumbramentos do século, o fracasso do homem no seu afã de domínio sobre a natureza e os enigmas tenebrosos da existência."
      O tom que foi infundido à obra pareceu, a princípio, bastante exótico e estranho às nossas letras. Os críticos atribuíam às suas leituras inglesas o aparecimento deste humor. Mas, aos poucos os cultores do humor se multiplicaram em outras literaturas e desaparece a certeza da influência, exclusivamente, inglesa.
      Você pode notar que, em geral, o humorismo corta, na obra de Machado de Assis, uma digressão que parecia querer estender-se e, justamente quando o autor dá a impressão de querer desviar-se da profundidade da idéia, é que nos leva a considerá-la. Como exemplo, temos o capítulo CXVII:
      A história do casamento de Maria Benedita é curta; e, posto Sofia e ache vulgar, vale a pena dizê-la. Fique desde já admitido que, se não fosse a epidemia das Alagoas, Talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclui que as catástrofes são úteis, e até necessárias. Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona, - um triste molambo de mulher, - chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.
      — É minha, sim, seu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo.
      — Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?
      O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias. Bom Padre Chagas! - Chamava-se Chagas. - Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos anos essa idéia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal aos outros; não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade, - a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo idéias consoladoras. Bom Padre Chagas!"
      É genial o comentário que o autor faz sobre o casamento de Maria Benedita. Graças a epidemia das Alagoas, a prima Sofia se vê no caminho do matrimônio. É como o ébrio que diante do incêndio pede licença para acender o charuto.
      Machado de Assis usa o humor, também, como arma para lutar contra o pessimismo. Humor em que a gente ri da gente mesmo. Rir para não chorar. Riso com uma sobrecarga de amargura.
      Surge, então, o Humanitismo. Que é esta filosofia? É uma visão ir6onica das filosofias que pregam ser a humanidade feita de uma só essência. A teoria dos Humanitas nasce em oposição ao Humanismo. Nesta, o homem é o centro de tudo e há uma total valorização dele. No Humanitismo aparece o pensamento pessimista e absurdo. O homem não aprece como um ser maravilhoso e perfeito, mas cheio de falsidades, onde um cão pode ser mais amigo e fiel do que ele.
      — Desde que Humanitas, segundo a minha doutrina, é o princípio da vida e reside em toda parte, existe também no cão, e este pode ser assim receber um nome de gente, seja cristão ou muçulmano...”
      “O cão ouvindo, correu a cama. Quincas Borba, comovido, olhou para Quincas Borba:
      — Meu pobre amigo! meu bom amigo! meu único amigo! (Cap. V)
      O homem é menos valorizado, no Humanitismo, não significa nada; é falso, instável e fraco. Podemos notar isto nos personagens machadianos. Tudo é igual. Na luta pela sobrevivência quem vence é o mais forte. “Ao vencedor as batatas.”
      — Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas chegam apenas para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ira à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.(Cap. VI)
      Sim. “Ao vencedor as batatas”. Depois da morte de Quincas Borba, Rubião sente-se dono das batatas. É um vencedor. As batatas, para ele, representavam riqueza, posição social. Não sabia ele que, na realidade, representavam, simplesmente, meras batatas. Não tinham valor algum. Seriam, apenas, o veículo de sua destruição. E ele que até então não entendera a exposição do filósofo, passa a compreender a fórmula:
      — Ao vencedor, as batatas!
      Tão simples! tão claro! Olhou para as calças de brim surrado e o rodaque cerzido, e notou que até há pouco fora, por assim dizer, um exterminado, um bolha; ma que ora não, era um vencedor. Não havia dúvida; as batatas fizeram-se para a tribo que elimina a outra para transpor a montanha e ir às batatas do outro lado. Justamente o seu caso. Ia descer de Barbacena para arrancar e comer as batatas da capital. Cumpria-lhe ser duro e implacável, era poderoso e forte. E levantando-se de golpe, alvoroçado, ergueu os braços exclamando:
      — Ao vencedor, as batatas!” (Cap. XVIII)
      PESSIMISMO. Ao lado dessas observações, colocaremos outra característica o Pessimismo.
      O pessimismo está presente em toda a obra. Isto é devido, em grande parte, ao agravamento de sua doença, a epilepsia, mal que, latente na infância, acentua-se por volta dos 40 anos, determinando então seu radical cepticismo. É o que reconhece Viana Moog:
      Ferido no seu orgulho pelo mal que o aflige, Machado de Assis, vinga-se derramando sobra a humanidade a bílis do humor”. “O homem que proclamava, ao termo da primeira fase, que alguma coisa se salva ao naufrágio das ilusões, transforma-se em justiçador dos homens e da vida. Na vida só vê insanidade e imperfeição imanentes. Nos homens só se vêem imperfeições. Seus olhos não descansam enquanto não surpreendem em flagrante a deformação de todas as coisas. (Viana Moog)
      Em Quincas Borba, Machado de Assis vai retratar a sociedade pequeno-burguesa do Segundo Império, onde o importante era a moda, o vestuário luxuoso, os adornos, a habitação, os títulos honoríficos. O valor das pessoas estavam, apenas, na sua exterioridade. Veja alguns exemplos desta preocupação com o mundo exterior.
      Um criado trouxe o café. Rubião pegou na xícara, e, enquanto lhe deitava o açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metais que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço...” (Cap. III)
      Fora, alguma gente parada; os vizinhos às janelas, debruçavam-se uns sobre os outros, com os olhos cheios daquela curiosidade que a morte inspira aos vivos. Ao demais, havia o coupé do Rubião, que se destacava das caleça velhas. Já se falara muito daquele amigo do finado, e a presença confirmou a notícia. O defunto era agora apreciado com certa consideração. (Cap. CI)
      Quando Rubião perde o dinheiro e a lucidez, você já pode imaginar que, também, os amigos o deixam. Palha e Sofia, os que mais se beneficiaram com a fortuna de Rubião, agora se afastam dele e não têm tempo nem de interná-lo numa Casa de Saúde.
      É uma grande amolação, redargüiu este (Palha). E perguntou que interesse tinha Dona Fernanda em tomar àquele negócio. Que o tratasse ela mesma! Era uma atrapalhação Ter de cuidar de novo do outro, de o acompanhar, e, provavelmente, de recolher e gerir algum resto de dinheiro que ainda houvesse, fazendo-se curador, como dissera o Doutor Teófilo. Um aborrecimento de todos os diabos. (Cap. XLXIV)
      É o interesse sempre presente no ser humano. Só existem “amigos” enquanto há alguma possibilidade de lucros materiais. Acaba-se o dinheiro, acabam-se as “amizades”.
      Mais uma característica poderá ser colocada ao lado destas – a sátira.
      O que é uma sátira? É uma caricaturização de tipos, situações políticas, situações amorosas, etc.
      Em Quincas Borba vamos encontrar vários exemplos.
      Dr. Camacho é o primeiro desta galeria, o qual representa bem a caricatura do politiqueiro demagogo.
      Camacho era homem político. Formado em direito em 1844, pela faculdade do Recife, voltara para a província natal, onde começou a advogar; mas a advocacia era um pretexto. Já na academia, escrevera um jornal político, sem partido definido, mas como muitas idéias colhidas aqui e ali, e expostas em estilo meio magro e meio inchado. Pessoa que recolheu esses primeiros frutos de Camacho fez um índice dos seus princípios e aspirações:
      - ordem pela liberdade, liberdade pela ordem; - a autoridade não pode abusar da lei, sem esbofetear-se a si própria; - a vida dos princípios é necessidade moral das nações novas como das nações velhas; - dai-me boa política, dai-vos-ei boas finanças; (Barão Louis); - mergulhemos no Jordão constitucional; - daí passagem aos valentes, homens do poder; eles serão os vossos sustentáculos, etc, etc.”(Cap. LVII).
      A sua linguagem é pomposa e enriquecida com constante uso do vocabulário latino. É o que vemos no capítulo CX:
      Os partidos devem ser unidos e disciplinados. Há quem pretenda (mirabile dictu!) que essa disciplina e união não podem ir ao ponto de rejeitar os benefícios que caem das mãos dos adversários. Risum teneatis! Quem pode proferir tal blasfêmia sem que lhe tremam as carnes? Mas suponhamos que assim seja, que a oposição possa, uma ou outra vez, fechar os olhos aos desmandos do governo, à postergação das leis, aos excessos da autoridade, à perversidade e aos sofismas. Qui inde? Tais casos, - aliás, raros, - só podiam ser admitidos quando favorecessem os elementos bons, não ao maus. Cada partido tem os seus díscolos e sicofantas. É interesse dos nossos adversários ver-nos afrouxar, a troco da animação dada à parte corrupta do partido. Esta é a verdade; negá-lo é provocar-nos à guerra intestina, isto é, à dilaceração da alma nacional... Mas, não, as idéias não morrem; elas são o lábaro da justiça. Os vendilhões serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os puros, os que põem acima dos interesses mesquinhos, locais e passageiros a vitória indefectível dos princípios. Tudo que não for isto ter-nos-á contra si Alea jacta est.”
      Carlos Maria – é a segunda caricatura da nossa galeria. É o conquistador, galanteador, o próprio “don Juan”. No capítulo LXXI, vamos ver um exemplo deste jovem enganador de corações femininos, como é o caso daquela frase bonita que dissera à Sofia e com a qual esta durante muito tempo sonhou:
      A noite era clara; fiquei cerca de uma hora , entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem sonhava comigo? Entretanto, eu quase que ouvia a sua respiração. O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente; com esta diferença que o mar é estúpido, bate sem saber por quê, e o meu coração saber que batia pela senhora.”
      Sofia teve um calafrio, procurou esquecer o texto, mas o texto ia-se repetindo: “A noite era clara...”
      Mais adiante vamos ter a verdadeira face dos fatos. O que está pensando o Carlos Maria?
      Carlos Maria saboreou de memória toda a conversação da noite, mas, quando se lembrou da confissão de amor, sentiu-se bem e mal. Era um compromisso, um estorvo, uma obrigação; e, posto que o benefício corrigisse o tédio, o rapaz ficou entre uma e outra sensação, sem plano. Ao recordar-se da notícia que lhe deu de haver ido à praia do Flamengo, na outra note, não pôde suster o riso, porque não era verdade.(Cap. LXXIV)
      Há ainda caricaturas de parasitas (Freitas), amizades falsas (Palha), enfim, de todos os tipos de uma sociedade.
      Outros aspectos do estilo de Machado de Assis, ponderáveis em Quincas Borba são: o diálogo com o leitor; o gosto pelas citações, referências bíblicas, referências a capítulos anteriores e uma predileção muito grande por personagens bem estabelecidas, financeiramente, que agem com muita freqüência, de forma maquinal e inconsciente.
      PERSONAGENS. Na obra de Machado de Assis, o mais importante é o caráter dos personagens. Eles não estão presos à trama da narrativa. Movimentam-se num ambiente mais de reflexões do que de ação.
      É interessante você notar que o personagens são levados por uma força maior que eles. Ficam sempre passivos, e esta força determina-lhes as ações. Sempre é usada a expressão “deixou-se estar”, “deixou-se ficar”.
      Foi aqui que o pé direito de Rubião descreveu uma curva na direção exterior, obedecendo a um sentimento de regresso; mas o esquerdo, tomado de sentimento contrário, deixou-se estar; lutaram alguns instantes...” (Cap. XLVII).
      Mais um exemplo é o capítulo que se segue:
      Na rua, encontrou Sofia com uma senhora idosa e outra moça. Não teve olhos para ver bem as feições destas; todo ele se foi pouco para Sofia. Falaram-se acanhadamente, dous minutos apenas, e seguiram o seu caminho. Rubião parou diante, e olhou para trás; mas as três senhoras iam andando sem voltar a cabeça. Depois do jantas, consigo:
      — Irei lá hoje?
      Reflexionou muito sem adiantar nada. Ora que sim, ora que não. Achara-lhe um modo esquisito; mas lembrava-se que sorriu, - pouco, mas sorriu. Pôs o caso à sorte. Se o primeiro carro que passasse viesse da direita, iria; se viesse da esquerda, não. E deixou-se estar na sala, no pouf central, olhando. Veio logo um tílburi da esquerda. Estava dito; não ia a Santa Tereza. Mas aqui a consciência reagiu; queira os próprios termos da proposta: um carro. Tílburi não era carro. Devia ser o que vulgarmente se chama de carro, uma caleça inteira ou meia, ou ainda uma vitória. Daí a pouco vieram chegando da direita muitas caleças, que voltavam de um enterro. Foi.”(Cap. LXIII)
      Rubião, no íntimo, tinha vontade de ir à casa de Sofia. Se o tílburi viesse da direita, com certeza, ele não ligaria ao fato de não ser um carro. Mas daí a pouco vieram muitas caleças da direita. É muito curioso o fato de serem caleças que voltavam de um enterro. Poderá ser a coincidência, mas a partir dessa decisão, começa o “enterro” de Rubião. É a destruição que caminha a passos largos ao seu encontro. É a vida que se acaba rapidamente.
      ESTRUTURA DO ROMANCE
      Para estudarmos o romance Quincas Borba, falaremos sobre a ação, o tempo, o lugar e os personagens.
      AÇÃO. O leitor que vir a obra apenas por seu recheio romanesco, quer dizer, o enredo ou o entrecho, sairá desiludido da leitura, pois a história contada é trivial e comum, reduzindo-se a um adultério sonhado, desejado, preparado, que afinal não se consuma. Só teria curiosidade como coisa nova o fato de ser a não-realização do freqüente e usual delito do romance realista, a que Machado de Assis, indiretamente, estava ligado. Mas, esse mesmo aspecto pode frustar o leitor que apenas busque na leitura o contacto com a tramas das personagens e não deseje algo mais, que o romance pode e deve dar. E é por esse lado que Quincas Borba tem de ser olhado, porquanto, se a história é chocha em si, vale sempre e sempre o escritor que espalha pelo caminho uma quantidade de pérolas de humanidade e de literatura, muito mais importantes, convenhamos, ao final de consta, do que uma história bem contada. Tudo isso é complexo e surpreendente: ao contrário de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado procurou escrever uma história que pudesse agradar por si própria e não por aspectos marginais. Tanto é assim que diligenciou por limpar o texto daquele excesso de reflexões morais e de interrupções no desenrolar das cenas, comuns no romance anterior. Parece que teve em mira escrever um romance para ser lido e não para ser analisado, daí os poucos ou raros desvios do núcleo da obra, toda ela girando em torno duma paixão que não se consuma em crime, como se fazia prever desde as primeira páginas. (Massaud Moisés).
      A ação se passa no Rio de Janeiro, havendo um recuo no tempo até Barbacena, onde se passam fatos importantes que dão origem ao romance.
      Na Corte é retratada a vida de um grupo de burgueses. Todas as exigências de uma falsa sociedade são descritas. Machado de Assis disseca a alma humana numa visão assistemática da vida. Coloca a nu a ambição, a avareza, as hipocrisias da sociedade.
      A narrativa se fecha em Barbacena, onde Rubião aparece louco. É o círculo da vida. O fim de Rubião é o mesmo de Quincas Borba e tudo termina no mesmo lugar onde inicia – Barbacena.
      A ação, portanto, se concentra em Rubião – Sofia. Mas há núcleos secundários, de real importância, como é o próprio da estrutura do romance; Sofia- Palha, Quincas Borba (cão e filósofo),
      Teófilo-Fernanda, Carlos Maria-Maria Benedita, Dr. Camacho, Major Siqueira-D. Tonica, Freitas, etc.
      TEMPO. É outro aspeto ponderável no estudo de um romance a determinação do tempo. Como é fácil observar, a ação decorre na Segunda metade do século XIX, como se pode aprender das diversas referências a personalidades políticas e fatos históricos da época.
      Não se pode dizer que o desenvolvimento do tempo é rigorosamente cronológico, havendo, às vezes, recuos que podem lembrar o tempo psicológico, como é o caso da história dos enforcados (cap. XLVII) a que Rubião “assiste” muito tempo depois.
      Portanto, os acontecimentos ocorrem na época do segundo império e não evoluem numa cronologia exata. À medida que há necessidade de esclarecimento, volta-se atrás e quando nada acontece de interessante há um salto sobre o tempo:
      Vem comigo, leitor; vamos v6e-lo; meses antes, à cabeceira do Quincas Borba (cap. III).
      Este é o convite feito pelo narrador e, a partir daí, durante 23 capítulos, acompanhamos a vida de Rubião em Barbacena até ele vir para a Corte.
      LUGAR. Como já foi dito, a ação inicia e termina em Barbacena, sendo que todos os fatos intermediários ocorrem na Corte.
      É importante notarmos que, apesar de ser especificado o local, este romance poderá ser enquadrado em qualquer parte do mundo. A temática é universal. Há muitos “Palhas e Sofias” por este mundo... Há muitas “Barbacenas” – princípio e fim de tudo, e muitas “Cortes” que, com seus encantos, envolvem e destroem o ser humano, como Rubião e o Quincas Borba, cão e filósofo, esmagados pela loucura da humanidade.
      PERSONAGENS. As personagens de um romance são, evidentemente, as pessoas que vivem situações e dramas dentro da narrativa. Normalmente, só “gente” pode ser personagem de romance. Às vezes, “animais” também participam de romances e contos, como tem acontecido com freqüência na literatura moderna. É o caso de Quincas Borba, o cão, elevado à categoria de personagem do romance machadiano, como projeção e prolongamento, por metempsicose, do filósofo do mesmo nome.
      a) Quincas Borba: em síntese, Quincas Borba se destaca pelos seguintes atributos: filósofo doido, esquisito, “com freqüente alteração de humor”, “ímpetos sem motivo”, “ternura sem proporção”, extravagante (cap. V), bom, alegre, lutava contra o pessimismo (cap. V) e desejava a sua continuidade através dos tempos como comprova a sua filosofia “borbista”, de natureza “humorística”, o Humanitismo. Depois que morreu, passou, por metempsicose, ao corpo do seu cão, como sugerem as dúvidas de Rubião ao longo da narrativa:
      “Olhou para o cão, enquanto esperava que lhe abrissem a porte. O cão olhava para ele, de tal jeito que parecia estar ali dentro o próprio e defunto Quincas Borba; era o mesmo olhar meditativo do filósofo, quando examinava negócios humanos...” (cap. XLIX).
      Como ressalta o crítico Massaud Moisés, “encarnado-se em seu cachorro, Quincas Borba continuou a exercer enorme influência, pois eu fiel amigo é um contraponto constante na evolução dos acontecimentos, pelas vezes em que aparece contracenando com Rubião. A preeminência indiscutível do animal sobra s demais personagens, com exceção do Rubião, justifica-se por aquele intuito satírico geral que orienta a obra, levando o leitor a pensar em como apenas um cão se salva do mundo de misérias em que vivem as demais criaturas do romance. Se não se trata de elogio de animalidade inconsciente, ou da mera inconsciência, pois Quincas Borba é um cão diferente dos outros, por trazer dentro de si um filósofo idealista e sonhados, é, sem sombra de dúvida, um recurso de fábula semelhante aos usados por La Fontaine, um dos escritores mais apreciados por Machado de Assis”.
      b) Rubião: de um modo geral, Rubião se caracteriza assim no romance: tem medo da opinião pública, é indeciso, volúvel, ambicioso (cap. I, X, XV), megalomaníaco, obsessivo, desequilibrado, tímido (cap. XXV), acomodado, ciumento, influenciável (cap. LXIX), conflituoso, ocioso, ingênuo.
      A sua megalomania, que o levará à sandice, tem desenvolvimento sutil e velado ao longo da narrativa: “A outra gente, que estava à porta e na calçada fez-lhe alas” (cap. LX); “Rubião teve aqui um impulso inexplicável, - dar-lhes a mão a beijar. Reteve-se a tempo, espantado de si próprio” (cap. XCI); “Tinha os olhos úmidos; acabou, saiu, ladeado pelos outros, e, à porta, com uma só chapelada para a direita e para a esquerda, saudou a todas as cabeças descobertas e curvas. Ao entrar no coupé, ainda ouviu estas palavras, a meia voz:
      — Parece que é senador ou desembargador, ou cousa assim”(cap. CI)
      Depois a megalomania vai aumentando claramente, à medida que sua herança decresce: é a loucura que está chegando com Napoleão III e a imperatriz Eugênia.
      Enfim, à proporção que vai “enlouquecendo”, Rubião vai ficando cada vez mais “lúcido” – herdeiro da fortuna e do espírito do filósofo Quincas Borba, escapando, assim, à chacota e à sátira machadianas, a que são os únicos no livro, além do cão, que conseguem escapar. É que Machado de Assis só sabe ver o mundo através da “loucura e do delírio”.
      c) Sofia: em linhas gerais, o perfil de Sofia, no romance, se delineia assim: vaidosa, orgulhosa, dominadora, fria, cautelosa, ambiciosa, sedutora, caráter ambivalente, frívola, sensual e dissimulada, como revela o cap. LXIX e o excelente cap. XLII, onde se saiu divinamente bem com a anedota do Padre Mendes, quando surpreendida, no jantar, com Rubião, pelo Major Siqueira:
      “— Olá! Estão apreciando a lua? Realmente, está deliciosa; está uma noite para namorados... Sim, deliciosa... Há muito que não vejo uma noite assim... Olhem só para baixo, os bicos de gás... Deliciosa! Para namorados... Os namorados gostam sempre da lua. No meu tempo, em Icaraí...
      Era Siqueira, o terrível major. Rubião não sabia que dissesse; Sofia, passados os primeiros instantes readquiriu a posse de si mesma; respondeu que, em verdade, a noite era linda; depois contou que Rubião teimava dizer que as noites do Rio não podiam comparar-se às de Barbacena, e, a propósito disso, referira uma anedota de um padre Mendes... Não era Mendes?
      — Mendes, sim, o padre Mendes, murmurou Rubião.
      O major mal podia conter o assombro. Tinha visto as duas mão presas, a cabeça do Rubião meio inclinada, o movimento rápido de ambos, quando ele entrou no jardim; e sai-lhe de tudo isto um padre Mendes... Olhou para Sofia; viu-a risonha, tranqüila, impenetrável. Nenhum medo, nenhum acanhamento; falava com tal simplicidade, que o major pensou ter visto mal. Mas Rubião estragou tudo. Vexado, calado, não fez mais que tirar o relógio para ver as horas, levá-lo ao ouvido, como se lhe parecesse que não andava, depois limpá-lo com o lenço, devagar, devagar, sem olhar para um nem para outro...”
      Lembremos aqui a Capitu de Dom Casmurro com seus “olhos de ressaca” e natureza dissimulada, como fica explicitado ao longo do romance.
      Mas, por falar em olhos, você notou a importância que Machado de Assis dá aos olhos de Sofia? Parece de propósito, como observa Cavalcanti Proença: os olhos seriam as janelas da alma. Afirmações do livro parecem confirmar a observação do crítico, como esta do cap. L:
      “Rubião olhava para ela muita vez, é certo; parece também que Sofia, em algumas ocasiões, pagava os olhares com outros... Concessões de moça bonita! Mas, enfim, contanto que lhe ficassem os olhos, podiam ir alguns raios deles. Não havia de ter ciúmes do nervo óptico, ia pensando o marido.”
      Noutra passagem, anotamos este encontro de Palha e Camacho carregado de humor:
      Palha e Camacho olharam um para o outro... Oh! esse olhar foi como um bilhete de visita trocado entre duas consciências. Nenhuma disse o seu segredo, mas viram os nomes no cartão, e cumprimentaram-se”.
      Enfim, concluindo, como ressalta Massaud Moisés, "seu papel acaba por ser duplo, pois representa a luxúria elegante e, ao mesmo tempo, serve de campo de prova para todo o drama de Rubião.
      d) Palha: ambicioso, egocêntrico, vaidoso (cap. XXXV), bajulador, interesseiro, parasita, desonesto, astuto, torpe. "Rotulado por um nome que já lhe traduz o caráter e a personalidade, também se atira ao dinheiro e à posição social como se estivesse no caminho certo".
      Vagamente pensava em baronia, diz Machado no cap. CXXIX.
      e) Carlos Maria: vaidoso, altivo (cap. LXIX), vazio, galanteador: é a caricatura do conquistador de frases feitas e lugares-comuns. Um aspecto que lhe é bastante característico é o de divindade, que Machado ironiza a toda hora. Casou-se para ser "adorado" pela esposa.
      f) Maria Benedita: tímida, pacata, sem iniciativa, passiva, resignada, influenciável, personalidade fraca. Seu casamento com Carlos Maria que, à primeira vista, significou o encontro da felicidade tão longamente sonhada, não passa de um ludíbrio, em virtude do pouco amor que Carlos Maria lhe dedicava.
      g) Dr. Camacho: é caricatura do politiqueiro demagogo de frase feita e retórica excessiva; astuto e interesseiro.
      h) Major Siqueira: mexeriqueiro, inicialmente, e depois despeitado como se revela no cap. CXXX.
      i) D. Tonica: o desespero desta "solteirona quarentona" já começa pelo nome: D. Tonica. Revela-se invejosa, revoltada, infeliz e frustrada.
      j) D. Fernanda: casamenteira e um tanto fidalga. No mais, uma boa senhora e esposa dedicada que sabe consertar a gravata do marido nas horas necessárias... (modelo para as menininhas de hoje que nem consertam gravatas nem colarinhos...).
      k) Teófilo: é o marido da superesposa acima: ambicioso, dinâmico e, às vezes, temperamental e minucioso, como no caso do "u" pelo "i" do cap. CXIX, em que um jornal torce todo o sentido da frase que escrevera: "Na dúvida, abstém-te, é o conselho do sábio. E puseram: Na dívida abstém-te... É insuportável!" comenta, quase chorando, o Teófilo que era forte candidato ao ministério...
      m) Freitas: caricatura do parasita e dos glutões de jantares e de charutos alheios. Deus que o tenha na sua santa glória!
      PROBLEMÁTICA APRESENTADA
      Para concluirmos este trabalho, parece-nos importante destacar aqui três aspectos ponderáveis no romance: a nulidade da vida, numa visão niilista e pessimista'; a apresentação de uma sociedade falsa e carcomida pelo câncer da hipocrisia e da ambição; e a indiferença dos astros do céu diante dos problemas do homem.
      A seguir, procuraremos desenvolver esses três aspectos:
      NIILISMO-PESSIMISMO. Sem dúvida, como ressalta o crítico Massaud Moisés, "o livro todo é uma grande sátira da vida, de seus ingredientes e de suas "verdades" (...) A ironia atinge a todos e só se salvam (caso o consigam), os loucos, os mansos e os animais irracionais".
      O romance é uma visão fria e impassível da vida. Lúcido como sempre, pessimista e niilista, Machado de Assis vai dissecando com sua câmera lenta toda a humanidade, corroída e carcomida pelo câncer da hipocrisia e da falsidade, espalhando por toda a terra e suas criaturas a sua "bílis" de epiléptico e de mestiço da sociedade. Tudo perpassado de uma visão irônica, de um humor niilista e pessimista que sempre marca a literatura machadiana. Em suma, é uma visão da vida que só a lucidez de um espírito louco, como Quincas Borba, pode dar: a humanidade desenfreadamente louca a buscar prazeres fáceis e fugazes, numa vida que só é opróbrio e alienação, embora com toda a fisionomia de verdade, porque aceita como convenção o imperativo moral da sociedade. No fim, a vida não passa de uma batatada: come-a a tribo vencedora - "ao vencedor as batatas". Ao cabo de tudo, os "heróis" da vida pegam nada, levantam nada e cingem nada, como aconteceu com o Rubião:
      Poucos dias depois morreu... Não morreu súdito nem vencido. Antes de principiar a agonia que foi curta, pôs a coroa na cabeça, - uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútilas brilhantes e outras pedras preciosas(cap. CC).
      Enfim, é assim a vida humana; achamos que temos na cabeça uma coroa de ouro, quando, na verdade, tudo não passa de um chapéu velho ou coisa semelhante.
      Mas Rubião é apenas um símbolo - "o fenômeno é universal"- e a vida, haveria de continuar corredia e besta como ela é, ad saecula saeculorum, amen...
      HIPOCRISIA-AMBIÇÃO. Dentro dessa perspectiva niilista e pessimista é que Machado situa a sociedade que retrata - sociedade hipócrita e falsa, interesseira e fútil, incapaz de olhar mais a fundo no íntimo dos problemas.
      Em volta do Rubião formou-se a constelação de parasitas e ambiciosos. Quem se salva entre eles? - Talvez apenas o cão, o único que era capaz de receber um pontapé e voltar correndo para o seu dono. Acaso alguém se interessou, realmente, pelo Rubião, quando este perdeu toda a sua fortuna? Entretanto, ele tivera "amigos". A casa vivia cheia deles.
      Enfim, tudo gira em torno do interesse e da ambição e para combatê-los só resta a ironia e humor. Nada escapa à análise dissecante de Machado nem a troca de um "u" por um "i" nem a estrutura secular do matrimônio indissolúvel. Afinal, como pensava D. Fernanda, a propósito do casamento, "um marido, ainda mau, é sempre melhor que o melhor dos sonhos"... (cap. CXVIII).
      INDIFERENÇA CÓSMICA. Acaba-se o mundo, chore quem quiser, ria, gargalhe a humanidade, que os astros do céu pouco estão ligando para os risos e lágrimas humanas. Ficarão sempre firmes e inabaláveis, longe das intempéries do planeta dos homens. Assistirão,, com a mesma indiferença e impassibilidade de sempre, "às bodas de Jacó e ao suicídio de Lucrécia" (cap. XLVI).
      Este é outro aspecto marcante do romance: a indiferença cósmica com que Machado de Assis vai fechar o seu livro. A passagem se refere à morte do Rubião e do cão Quincas Borba:
      Eia! Chora os dous recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma cousa. O cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens(cap. CCI)





































TEXTO PARA AS QUESTÕES 01, 02 E 03.

Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas."

    (ASSIS, Joaquim Maria Machado de. "Quincas Borba". Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997. p. 648-649.)

1.(UEL 2005) Nessa passagem, quem fala é Quincas Borba, o filósofo. Suas palavras são dirigidas a Rubião, ex-professor, futuro capitalista, mas, no momento, apenas enfermeiro de Quincas Borba. É correto afirmar que a maneira como constrói esse discurso revela preocupação com:

a) A clareza e a objetividade, uma vez que visa à compreensão de Rubião da filosofia por ele criada, o Humanitismo.
b) A emotividade de suas palavras, dado objetivar despertar em Rubião piedade pelos vencidos e ódio pelos vencedores.
c) A informação a ser transmitida, pois Rubião, sendo seu herdeiro universal, deverá aperfeiçoar o Humanitismo.
d) O envolvimento de Rubião com a filosofia por ele criada, o Humanitismo, dada a urgência em arregimentar novos adeptos.
e) O estabelecimento de contato com Rubião, uma vez que o mesmo possui carisma para perpetuar as novas idéias.

2. Com base nas palavras de Quincas Borba, considere as afirmativas a seguir

I.             As duas tribos existem separadamente uma da outra.
II.           A necessidade de alimentação determina os termos do relacionamento entre as duas tribos.
III.          O relacionamento entre as duas tribos pode ser amistoso ("dividem entre si as batatas") ou competitivo ("uma das tribos extermina a outra").
IV. O campo de batatas determina a vitória ou a derrota de cada uma das tribos.

Estão corretas apenas as afirmativas:
a) I e IV.
b) II e III.
c) III e IV.
d) I, II e III.
e) I, II e IV.

3. O Humanitismo, filosofia criada por Quincas Borba, é revelador:
a) Do posicionamento crítico de Machado de Assis aos muitos "ismos" surgidos no século XIX: darwinismo, positivismo, evolucionismo.
b) Da admiração de Machado de Assis pelos muitos "ismos" surgidos no início do século XX: futurismo, impressionismo, dadaísmo.
c) Da capacidade de Machado de Assis em antever os muitos "ismos" que surgiriam no século XIX: darwinismo, positivismo, evolucionismo.
d) Da preocupação didática de Machado de Assis com a transmissão de conhecimentos filosóficos consolidados na época.
e) Da competência de Machado de Assis em antecipar a estética surrealista surgida no século XX.


4. (Ufsc) Na questão a seguir escreva nos parênteses a soma dos itens corretos.
Assinale as proposições CORRETAS sobre o livro QUINCAS BORBA de Machado de Assis.
01. É um livro autobiográfico que mostra a relação entre estudantes de um internato. A fixação de Sérgio (aluno) por Ema (esposa do diretor) é uma apresentação clara do Complexo de Édipo.
02. Palha é o nome do marido FLEXÍVEL de Sofia (palavra que em grego significa sabedoria), que astuciosamente o traía sem se comprometer.
04. O HUMANITISMO é uma versão irônica do POSITIVISMO, filosofia que estava em moda no tempo de Machado de Assis.
08. A preocupação do autor é salientar que de um lado está o povo (conglomerado humano); de outro, o poder. O preconceito de cor é disfarce para ocultar o preconceito econômico.
16. AO VENCEDOR AS BATATAS é uma das frases do HUMANITISMO, filosofia definida por Rubião.

SOMA:______

Capítulo CC

Poucos dias depois, [Rubião] morreu... Não morreu súbdito nem vencido. Antes de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça, - uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforço que fizera para erguer meio corpo não durou muito; o corpo caiu outra vez; o rosto conservou porventura uma expressão gloriosa.
- Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor...
A cara ficou séria porque a morte é séria; dous minutos de agonia, um trejeito horrível, e estava assinada a abdicação.

Capítulo CCI

Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homônimo é que dá titulo ao livro, e por que antes um que outro, - questão prenhe de questões, que nos levariam longe... Eia! chora os dous recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, rite! É a mesma cousa. O Cruzeiro que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.

    (Machado de Assis, "Quincas Borba")


5. (FATEC 2005) Depreende-se do texto que

a) ao narrar a agonia de Rubião, o narrador deixa implícito que aquele merecia as honrarias de um rei.
b) a ambigüidade no título do romance, "Quincas Borba", justifica-se pelo fato de o autor não conseguir definir-se por homenagear o filósofo ou seu cão.
c) a afirmação que encerra o capítulo CC revela um traço machadiano característico: a ironia.
d) a declaração de que Sofia não quis fitar o Cruzeiro revela a indiferença como matriz do estilo do autor.
e) a linguagem empregada para descrever a morte de Quincas Borba revela tendência do narrador a dar mais importância ao cão do que a Rubião.


Rubião fitava a enseada,- eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra cousa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (...), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.
         "Vejam como Deus escreve certo por linhas tortas", pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...
                                               (Machado de Assis)

6. (Mackenzie)Assinale a alternativa correta quanto ao texto.

a) Instala-se, explicitamente, um interlocutor-leitor, que é a pessoa a quem o personagem Rubião se dirige, ao fazer perguntas.
b) Trata-se de um texto sem historicidade, ou seja, não se relaciona com a História, porque não revela concepções ideológicas.
c) Revela-se um personagem capitalista que enxerga o mundo sob a ótica da propriedade.
d) As reticências finais sugerem uma voz que confirma e reforça a desgraça.
e) As perguntas e respostas são feitas em discurso direto, já que há duas enunciações.


7. (Ita 2005) Em 1891, Machado de Assis publicou o romance "Quincas Borba", no qual um dos temas centrais do Realismo, o triângulo amoroso (formado, a princípio, pelos personagens Palha-Sofia-Rubião), cede lugar a uma equação dramática mais complexa e com diversos desdobramentos. Isso se explica porque

a) o que levava Sofia a trair Palha era apenas o interesse na fortuna de Rubião, pois ela amava muito o marido.
b) Palha sabia que Sofia era amante de Rubião, mas fingia não saber, pois dependia financeiramente dele.
c) Sofia não era amante de Rubião, como pensava seu marido, mas sim de Carlos Maria, de quem Palha não tinha suspeita alguma.
d) Sofia não era amante de Rubião, mas se interessou por Carlos Maria, casado com uma prima de Sofia, e este por Sofia.
e) Sofia não se envolvia efetivamente com Rubião, pois se sentia atraída por Carlos Maria, que a seduziu e depois a rejeitou.

8. (Pucrs 2007) No início de "Quincas Borba", a personagem Rubião avalia sua trajetória, enquanto olha para o mar, para os morros, para o céu, da janela de sua casa, em Botafogo. Passara de .......... a capitalista ao .......... . Mas, no final do romance, o personagem acaba morrendo na miséria.

As lacunas podem ser correta e respectivamente preenchidas por:
a) jornalista  -  receber um prêmio
b) professor  -  receber uma herança
c) enfermeiro  -  se tornar comerciante
d) filósofo  -  investir em terras
e) enfermeiro  -  se casar com Sofia


9. (Ufes) Quincas Borba, criador da filosofia do Humanitismo, resumia o princípio do Humanitas em um lema: "ao vencedor, as batatas". Ao término da leitura do livro de Machado de Assis, pode-se afirmar que esse lema está intimamente associado ao desenvolvimento e ao desfecho do enredo. Emblematicamente, a narrativa "Quincas Borba" demonstra esse princípio filosófico ao colocar as personagens em confronto permanente no espaço social, procurando sempre um a pilhagem do outro. A partir desse contexto, é INCORRETO dizer que

a) o narrador é onisciente, expondo todos os personagens ao dissecamento moral.
b) o narrador, em primeira pessoa, isenta-se de comentar os fatos da narrativa.
c) o tema do Humanitismo pode ser resumido em "o homem é o lobo do homem".
d) Palha e Sofia são personagens que encarnam a ética da tribo vencedora do Humanitas.
e) Quincas Borba, cão, é um personagem que leva a fidelidade às últimas conseqüências.


10. (Ufmg 2007) Com base na leitura de "Quincas Borba", de Machado de Assis, é CORRETO afirmar que o narrador do romance

a) adere ao ponto de vista do filósofo, pois professa a teoria do Humanitismo.
b) apela à sentimentalidade do leitor no último capítulo, em que narra a morte de Rubião.
c) apresenta os acontecimentos na mesma ordem em que estes se deram no tempo.
d) narra a história em terceira pessoa, não participando das ações como personagem.

XLIX


O cão ladrou de dentro; mas, logo que Rubião entrou, recebeu-o com grande alegria; e por mais importuno que fosse, Rubião desfez-se em carícias. A possibilidade de estar ali o testador dava-lhe arrepios. Subiram juntos a escada de pedra; ali ficaram por alguns instantes, à luz do lampião que Rubião mandara deixar aceso. Rubião era mais crédulo que crente; não tinha razões para atacar nem para defender nada: – terra eternamente virgem para se lhe plantar qualquer coisa. A vida da Corte deu-lhe até uma particularidade; entre incrédulos, chegava a ser incrédulo...
Olhou para o cão, enquanto esperava que lhe abrissem a porta. O cão olhava para ele, de tal jeito que parecia estar ali dentro o próprio defunto Quincas Borba; era o mesmo olhar meditativo do filósofo, quando examinava negócios humanos... Novo arrepio; mas o medo, que era grande, não era tão grande que lhe atasse as mãos. Rubião estendeu-as sobre a cabeça do animal, coçando-lhe as orelhas e a nuca.
– Pobre Quincas Borba! Gosta de seu senhor, não gosta? Rubião é muito amigo de Quincas Borba...
E o cão movia devagar a cabeça, para a esquerda e para a direita, ajudando a distribuição das carícias às duas orelhas pendentes; depois levantava o queixo, para que lhe coçasse embaixo, e o dono obedecia; mas então os olhos do cão, meio fechados de gosto, tinham um ar dos olhos do filósofo, na cama, contando-lhe coisas de que ele entendia pouco ou nada... Rubião fechava os seus. Abriram-lhe a porta; despediu-se do cão, mas com tais carinhos, que era o mesmo que pedir-lhe que entrasse. O criado espanhol incumbiu-se de o levar para baixo.
– Não lhe dê pancadas, recomendou Rubião.
Não lhe deu pancadas; mas só a descida era dolorosa, e o cão amigo gemeu por muito tempo no jardim. Rubião entrou, despiu-se e deitou-se. Ah! tinha vivido um dia cheio de sensações diversas e contrárias, desde as recordações da manhã, e o almoço aos dois amigos, até aquela última idéia de metempsicose, passando pela lembrança do enforcado, e por uma declaração de amor não aceita, mal repelida, parece que adivinhada por outros... Misturava tudo; o espírito ia de um para outro lado como bola de borracha entre mãos de crianças.
Contudo, a sensação maior era a do amor. Rubião estava admirado de si mesmo, e arrependia-se; mas o arrependimento era obra da consciência, ao passo que a imaginação não soltava por nenhum preço a figura da bela Sofia... Uma, duas, três horas... Sofia ao longe, os latidos do cão embaixo... O sono esquivo... Onde iam já as três horas? Três e meia... Enfim, depois de muito cuidar, apareceu-lhe o sono, espremeu as clássicas
papoulas, e foi um instante; Rubião dormiu antes das quatro.

ASSIS, Machado de. Quincas Borba.13 ed. São Paulo: Ática, 1995, p. 60-61.

11. No texto, o narrador faz referência ao comportamento de Rubião em relação ao cão. Acerca desse comportamento, é correto afirmar que o personagem

a) demonstrava um carinho especial pelo animal, independentemente da amizade com Quincas Borba, o amigo falecido.
b) sentia medo do animal que, por vezes, era estranho e agressivo.
c) gostava muito de animais, quanto mais daquele que lhe lembrava a fisionomia do falecido.
d) via-se obrigado a agradar o animal, por sentir nele a presença do amigo falecido.
e) mostrava-se sempre muito alegre e feliz ao reencontrar o seu cão.

12. Leia:

Rubião era mais crédulo que crente; não tinha razões para atacar nem para defender nada: terra eternamente virgem para se lhe plantar qualquer coisa.” (linhas 4 e 5)

Com base nesse fragmento, é correto afirmar que Rubião era

a) ingênuo, deixando-se influenciar facilmente pelo meio em que vivia.
b) avesso às atitudes daqueles que o cercaram.
c) apático à realidade dos fatos, não aceitando a opinião de ninguém.
d) indiferente aos amigos, isolando-se no seu mundo interior.
e) ateu, já que não tinha nenhuma religião.

13. No fragmento “[...]e por mais importuno que fosse, Rubião desfez-se em carícias.” (linhas 1 e 2), a oração destacada pode ser substituída, sem alteração do sentido, por:

a) desde que fosse muito importuno
b) à medida que fosse muito importuno
c) ainda que fosse muito importuno
d) uma vez que fosse muito importuno
e) visto que fosse muito importuno

8. Leia os fragmentos:

“[...]terra eternamente virgem para se lhe plantar qualquer coisa.” (linhas 4 e 5)
A vida da Corte deu-lhe até uma particularidade;” (linha 5)

Com relação ao uso do pronome “lhe”, em destaque nesses fragmentos, identifique as afirmativas corretas:

I. Na primeira ocorrência, remete à expressão terra eternamente virgem.
II. Na primeira ocorrência, expressa circunstância de lugar em relação ao verbo plantar.
III. Na segunda ocorrência, completa o sentido da forma verbal deu, funcionando como objeto indireto.
IV. Na segunda ocorrência, retoma a expressão A vida da Corte.
V. Nas duas ocorrências, pode ser substituído pelo termo Rubião.

14. Considerando a postura de Rubião expressa no fragmento “A vida da Corte deu-lhe até uma particularidade; entre incrédulos, chegava a ser incrédulo...” (linhas 5 e 6), identifique as afirmativas corretas:

I. Rubião mudara o seu comportamento, assimilando a maneira de ser dos outros que ora o rodeavam.
II. O comportamento de Rubião reafirma a teoria do Determinismo, segundo a qual o homem é fruto do meio em que vive.
III. Rubião tornara-se incrédulo, enquadrando-se no perfil do típico herói romântico.
IV. A vida da Corte transformara o personagem Rubião, sem contudo nivelá-lo à condição dos demais seres da sociedade burguesa.
V. O fragmento denuncia a influência que a sociedade exerce sobre o cidadão, traço característico da obra de natureza realista.

15. No último parágrafo do texto, o narrador faz considerações acerca da insônia de Rubião. Com relação a esse estado de insônia, identifique as afirmativas corretas:

I. O narrador registra o desassossego do espírito de Rubião, recorrendo à linguagem figurada, comparando-o a uma bola de borracha entre mãos de crianças. (linha 23)
II. O sono de Rubião era perturbado, sobretudo, pela lembrança da figura de Sofia, como assinala o fragmento Contudo, a sensação maior era a do amor. (linha 24)
III. A insônia de Rubião era resultado apenas da lembrança do enforcado, que se tornara tão presente naquele dia. (linha 22)
IV. O arrependimento de Rubião acerca de suas atitudes naquele dia, era obra da consciência e não fruto da imaginação. (linha 25)
V. O principal motivo que levara Rubião a perder o sono eram os latidos do cão embaixo...
(linha 26)

Casa de Pensão
(Aluísio de Azevedo )
     à1ª Análise:


          A obra foi baseada num fato real: a 
Questão Capistrano, crime que sensibilizou o Rio de Janeiro em 1876/77, envolvendo dois estudantes, em situação muito próxima à da narração de Aluísio Azevedo. Neste livro, o autor estuda as influências da sociedade sobre o indivíduo sem qualquer idealização romântica, retratando rigorosamente a realidade social trazendo para a literatura um Brasil até então ignorada.

Autor fiel à tendência naturalista difundida pelo realismo, Aluísio Azevedo focaliza, nesta obra, problemas como preconceitos de classe, de raças, a miséria e as injustiças sociais. Descreve a vida nas pensões chamadas familiares, onde se hospedavam jovens que vinham do interior para estudar na capital. Diferente do romantismo, o naturalismo enfatiza o lado patológico do ser humano, as perversões dos desejos e o comporta-mento das pessoas influenciado pelo meio em que vivem.

Casa de Pensão é uma espécie de narrativa intermediária entre o romance de personagem (O Mulato) e o romance de espaço (O Cortiço). Como em O Mulato, todas as ações ainda estão vinculadas à trajetória do herói, nesse caso, Amâncio de Vasconcelos. Mas, como em O Cortiço, a conquista, ordenação e manutenção de um espaço é que impulsiona, motiva e ordena a ação. Espaço e personagem lutam, lado a lado, para evitar a degradação.

As teses naturalistas, especialmente o Determinismo, alicerçam a construção das personagens e das tramas.

Romance naturalista de 1884, em que o autor, de carreira diplomática bastante acidentada, move personagens que se coadunam perfeitamente com a análise dos críticos de que seus tipos são, via de regra, grosseiros, não se distinguem pela sutileza da compreensão, nem pela frescura dos sentimentos. São eixos de relações da estrutura da presente narrativa a Província - Maranhão, a Corte - Rio de Janeiro, a casa paterna e a casa de pensão.

Estilo

O naturalismo está plenamente representado em Casa de Pensão desde a abertura do romance, quando Amâncio aparece marcado fatalisticamente pela escola e pela família: uma e outra o encheram de revolta. Por causa de um castigo justo ou injusto, "todo o sentimento de justiça e da honra que Amâncio possuía, transformou-se em ódio sistemático pelos seus semelhantes...". O leite que o menino mamou na ama negra também está contagiado e irá marcá-lo. O médico dizia: "Esta mulher tem reuma no sangue e o menino pode vir a sofrer para o futuro."  Amâncio é uma cobaia, um campo de experimentação nas mãos do romancista. Nele o fisiológico é muito mais forte do que o psicológico. É o determinismo que vai acompanhar toda a carreira do personagem. 

Está presente também na obra o sentido documental e experimental do romance naturalista, renunciando ao sentimentalismo e à evasão, procura construir tudo sobre a realidade. Como já mencionado, a estória do romance se baseia num caso real.

Linguagem

Uma técnica comum ao escritor naturalista é o abuso dos pormenores descritivo-narrativos de tal modo que a estória caminha devagar, lerda e até monótona. É a necessidade de ajuntar detalhes para se dar ao leitor uma impressão segura de que tudo é pura realidade. Essas minúcias se estendem a episódios, a personagens e a ambientes. Num episódio, por exemplo, há minúcias de tempo, local e personagens. E móveis de uma sala até os objetos mais miúdos.

Não se pode dizer que a linguagem do romance é regionalista; pelo contrário, o padrão da língua usada é geral e o torneio frasal, a estrutura morfo-sintática é completamente fiel aos padrões da velha gramática portuguesa. 

Como Machado de Assis, Aluísio Azevedo também usa alguns recursos desconhecidos da língua portuguesa do Brasil, principalmente na língua oral. Assim, por exemplo, o caso daapossínclise (é uma posição especial do pronome oblíquo que não escutamos no Brasil, mas é comum até na língua popular de Portugal). São exemplos de apossínclise: "Há anos que menão encontro com o amigo." (Há anos que não me...) "Se me não engano, você está certo." EmCasa de Pensão essa posição pronominal é um hábito comum.

Foco narrativo

O autor escolheu o seu ponto-de-vista narrativo: a terceira pessoa do singular, um narrador onisciente e onipotente, fora do elenco dos personagens. Como um observador atento e minucioso dentro das próprias fórmulas apertadas do naturalismo. No caso deste romance, Aluísio Azevedo trabalhou muito servilmente sobre os fatos absolutamente reais.

Temática

Como em O Cortiço, Aluísio de Azevedo se torna excepcionalmente rico na criação de personagens coletivos: a casa de pensão, tão comum ainda hoje, no Brasil inteiro, tem vida, uma vida estudante, nas páginas do romance. Aluísio conhecia, de experiência própria, esse ambiente feito de tantos quartos e tantos inquilinos, tão numerosos e tão diferentes, nivelados pela mediocridade e em fácil decadência moral. O autor faz alguns retratos com evidentes traços caricaturais (a sua velha mania ou vocação para a caricatura...), mas fiéis e verdadeiros. Tudo se movimenta diante do leitor: a casa de pensão é um mundo diferente, gente e coisas tomam aspectos novos, as pessoas adquirem outros hábitos, informadas ou deformadas por essa vida comunitária tão promíscua. Aí se encontram e se desencontram, se amontoam e se separam tantos indivíduos transformados em tipos, conhecidos, às vezes, apenas pelo número do quarto. Em O Cortiço o meio social é mais baixo; na Casa de Pensão é médio. 

Às doenças morais (promiscuidades, hipocrisia, desonestidades, sensualismos excitados e excitantes, ódios, baixos interesses, dinheiro...) se misturam também doenças físicas (o tuberculoso do quarto 7 que morre na casa de pensão, a loucura e histerismo de Nini...). Foi o que encontrou Amâncio na Casa de Pensão de Mme. Brizard. Fora para o Rio de Janeiro, para estudar. E, num ambiente como esse, quem seria capaz de estudar? É verdade que o rapaz já trazia a sua mentalidade burguesa do tempo: o que ele buscava não era uma profissão, mas apenas um diploma e um título de doutor. Ele, sendo rico, não precisaria da profissão, mas, por vaidade, de um status, de um anel no dedo e de um diploma na parede. Essa mania de doutor, doença que pegou no Brasil, já foi magistralmente caricaturada em deliciosa carta de Eça de Queirós ao nosso Eduardo Prado: "A nação inteira se doutorou. Do norte ao sul do Brasil, não há, não encontrei senão doutores! Doutores com toda a sorte de insígnias, em toda a sorte de funções!! Doutores com uma espada, comandando soldados; doutores com uma carteira, fundando bancos: doutores com uma sonda, capitaneando navios; doutores com uma apito, comandando a polícia; doutores com uma lira, soltando carnes; doutores com um prumo, construindo edifícios; doutores com balanças, ministrando drogas; doutores sem coisa alguma, governando o Estado! Todos doutores..." O próprio Aluísio de Azevedo abandonou a Província para buscar sucessos na Corte (Rio de Janeiro) e, certamente também, um título de doutor...

Personagens

Os personagens, sob nomes fictícios, escondem pessoas reais:

Amâncio da Silva Bastos e Vasconcelos - (João Capistrano da Silva) estudante, acusado de sedução. Foi absolvido. 

Amélia ou Amelita - (Júlia Pereira) a moça seduzida, pivô da tragédia. 

Mme. Brizard - (D. Júlia Clara Pereira, mãe da moça e do rapaz, assassino) é uma viúva, dona da casa de pensão:  

João Coqueiro - Janjão - (Antônio Alexandre Pereira, irmão da moça Júlia Pereira e assassino de João Capistrano. Foi também absolvido). 

Dr. Teles de Moura - (Dr. Jansen de Castro Júnior) advogado da família da moça.

Enredo

Amâncio (Da Silva Bastos e Vasconcelos), rapaz rico e provinciano, abandona o Maranhão e segue de navio para o Rio de Janeiro (a Corte) a fim de se encaminhar nos estudos e na vida. É um provinciano que sonha com os deslumbramentos da Corte. Chega cheio de ilusões e vazio de propósitos de estudar... A mãe fica chorosa e o pai, indiferente, como sempre fora no trato meio distante com o filho. O rapaz tinha que se tornar um homem. 

Amâncio começa morando em casa do sr. Campos, amigo do Pai, e, forçado, se matricula na Escola de Medicina. Ia começar agora uma vida livre para compensar o tempo em que viveu escravizado às imposições do pai e do professor, o implacável Pires. 

Por convite de João Coqueiro, co-proprietário de uma casa de pensão, junto com a sua velhusca mulher Mme. Brizard, muda-se para lá. É tratado com as maiores preferências: os donos da pensão queriam aproveitar o máximo de seu dinheiro e ainda arranjar o seu casamento com Amélia, irmã de Coqueiro. Um sujo jogo de baixo interesses, sobretudo de dinheiro. Naquele ambiente, tudo concorreria para fazer explodir a super-sensualidade do maranhense. 

"Ele, coitado, havia fatalmente de ser mau, covarde e traiçoeiro: Na ramificação de seu caráter e sensualidade era o galho único desenvolvido e enfolhado, porque de todos só esse podia crescer e medrar sem auxílios exteriores." 

A casa de pensão era um amontoado de gente, em promiscuidade generalizada, apesar da hipócrita moralidade pregada pelo seu dono: havia miséria física e moral, clara e oculta. Com a chegada de Amâncio, a pensão passou a arapuca para prender nos seus laços o jovem, inesperto e rico estudante: pegar o seu dinheiro e casá-lo com a irmã do Coqueiro. Para alcançar o fim, todos os meios eram absolutamente lícitos. Amélia, principalmente quando da doença do rapaz, se desdobrou nos mais íntimos cuidados. Até que se tornou, disfarçadamente, sua amante. Sempre mantendo as aparências do maior respeito exigido dentro da pensão pelo João Coqueiro... 

O pai de Amâncio morre no Maranhão. A mãe chama o filho. Ele pretendo voltar, logo que terminarem os seus exames de medicina. Era preciso que o filho voltasse para vê-la e ver os negócios que o pai deixara. Mas o rapaz está preso à casa de pensão e a Amélia: este o ameaça e só permite sua ida ao Maranhão, depois do casamento. Amâncio prepara sua viagem às escondidas. Mas, no dia do embarque, um oficial e justiça acompanhado de policiais o prende para apresentação à delegacia e prestação de depoimentos. Amâncio é acusado de sedutor da moça. João Coqueiro prepara tudo: o caso foi entregue ao famigerado e chicanista Dr. Teles de Moura. Aparecem duas testemunhas contra o rapaz. Começa o enredado processo: uma confusão de mentiras, de fingimentos, de maucaratismo contra o jovem rico e desfrutável para os interesses pecuniários de Mme. Brizard e marido. Há uma ressonância geral na imprensa e, na maioria, os estudantes se colocam ao lado de Amâncio. O senhor Campos prepara-se para ajudar o seu protegido, mas Coqueiro lhe faz chegar às mãos uma carta comprometedora que Amâncio escrevera à sua senhora, D. Hortênsia. E se coloca contra quem não soube respeitar nem a sua casa... 

Três meses depois de iniciado o processo, Amâncio é absolvido. O rapaz é levado em triunfo para um almoço, no Hotel Paris. 

"Amâncio passava de braço a braço, afagado, beijado, querido, como uma mulher famosa." Todo mundo olhava com curiosidade e admiração o estudante absolvido. E lhe atiravam flores, Ouviam-se vivas ao estudante e à Liberdade. Os músicos alemães tocaram a Marselhesa. Parecia um carnaval carioca. 

Em outro plano, Coqueiro, sozinho, vendo e ouvindo tudo. A alma envenenada de raiva. Em casa o destampatório da mulher que o acusava de todo o fracasso. As testemunhas reclamavam o pagamento do seu depoimento. Um inferno dentro e fora dele. Chegaram cartas anônimas com as maiores ofensas. Um homem acuado... 

Pegou, na gaveta, o revólver do pai. E pensou em se matar. Carregou a arma. Acertou o cano no ouvido. Não teve coragem. Debaixo da sua janela, gritavam injúrias pela sua covardia e mau caráter... No dia seguinte, de manhã, saiu sinistro. Foi ao Hotel Paris. Bateu no quarto II, onde se encontrava o estudante com a rapariga Jeanete. Esta abriu a porta. Amâncio dormia, depois da festa e da bebedeira, de barriga para cima. Coqueiro atirou a queima-roupa. Amâncio passa a mão no peito, abre os olhos, não vê mais ninguém. Ainda diz uma palavra: "mamãe" ... e morre. 

Coqueiro foi agarrado por um policial, ao fugir. A cidade se enche de comentários. Muitos visitam o necrotério para ver o cadáver de Amâncio. Vendem-se retratos do morto. Um funeral grandioso com a presença de políticos, notícias e necrológicos nos jornais, a cidade toda abalada. A tragédia tomou conta de todos. 

A opinião pública começa a flutuar, a mudar de posição: afinal, João Coqueiro tinha lavado a honra da irmã... 

Quando D. Ângela, envelhecida e enlutada, chega ao Rio de Janeiro, se viu no meio da confusão, procurando o filho. Numa vitrine, ela descobriu o retrato do filho "na mesa do necrotério, com o tronco nu, o corpo em sangue. Uma legenda: "Amâncio de Vasconcelos, assassinado por João Coqueiro, no Hotel Paris...
è 2ª Análise:
      ROTEIRO BIOGRÁFICO
      Aluísio Azevedo (Aluísio Tancredo Gonçalvez de Azevedo), irmão do teatrólogo Arthur Azevedo, nasceu em S. Luís do Maranhão, em 14 de abril de 1857 e morreu, com 56 incompletos, em 21 de janeiro de 1913, na capital argentina. Era diplomata, por concurso, desde 1895, tendo exercido funções em várias partes do mundo.
      O desenho e a caricatura eram a sua grande vocação. Acabou romancista. "Fiz-me romancista, não por pendor, mas por me haver convencido da impossibilidade de seguir a minha vocação que é a pintura. Quando escrevo, pinto mentalmente. Primeiro desenho os meus romances, depois redijo-os." (Aluísio Azevedo – Uma vida de romance – Raimundo de Menezes – Liv. Martins Edit. P. 146). Foi um dos primeiros, entre nós, a procurar viver ou sobreviver de sua profissão de escritor.
      "Escrever tem sido até hoje aqui no Rio de Janeiro a minha grilheta, muito pesada e bem pouco lucrativa..." (Apud Prosa de Ficção – Lúcia Miguel Pereira – Liv. José Olympio Edit. – 1957 – 2ª ed. Pág. 143). "Aluísio Azevedo é no Brasil talvez o único escritor que ganha o pão exclusivamente à custa da sua pena, mas note-se que apenas ganha o pão: as letras no Brasil ainda não dão para a manteiga..." (Valentim Magalhães – apud Raimundo de Menezes – o.c.. pág. 29).
      Por isso, muitas vezes fabricou os seus romances para (sobre)viver. Alguns de seus livros são de "pura inspiração industrial", segundo expressão de José Veríssimo. (História de Literatura Brasileira – Liv. Francisco Alves – Rio – 1916 – pág. 357). Com alguma facilidade se pode notar o desnível que existe entre os seus romances. De sua obra ficcional, bastante numerosa, o tempo, crítico severo, selecionou algumas que ficaram e ficarão na literatura naturalista brasileira. "De tudo isso só ficaram O CortiçoO CorujaFilomena Borges e O Livro de uma Sogra, são hoje a bem dizer, ilegíveis. Mas O Cortiço basta para lhe assegurar a posição de primeiro plano da nossa literatura." (Prosa de Ficção – Lúcia Miguel Pereira – Liv. José Olympio Edit. – Rio – 1957 – 2ª ed. Pág. 144).
      "Casa de Pensão e O Cortiço, assinalemos desde já, situam-se no ponto mais alto da curva que descreve a evolução da obra de Aluísio Azevedo." (Josué Montello – in A Literatura no Brasil – vol II – pág. 61).
      "Quer em O Cortiço quer em Casa de Pensão, pôde realizar criações romanescas notáveis pela excelente fixação de alguns tipos, pela movimentação das cenas e pelo jogo das situações dramáticas." (Aspectos de Romance Brasileiro – Eugênio Gomes – Liv. Progresso Edit. – Salvador – s.d. pág. 129).
      Há alguma concordância na seleção das duas melhores obras de Aluísio Azevedo, conforme se pode ver pela crítica citada. Talvez o tempo tenha cometido uma injustiça, esquecendo O Coruja, uma estória muito humana de uma personagem tão bonita de alma e tão feia de corpo. Corre no livro uma lírica visão do homem.
      Diz Josué Montello que "Alcides Maia foi o único grande crítico a chamar a atenção para a alta importância de O Coruja, não apenas no panorama restrito da bibliografia de Aluísio, mas dentro do panorama geral de nossa literatura, ao afirmar que, na sua estranha personagem central, há uma criatura de arte que roça pelo símbolo e não tem rival no romance brasileiro." (A Literatura no Brasil – vol. II – pág. 62).
      Mas não há dúvida para a crítica atual que O Cortiço ficou definitivamente como sua obra-prima: apesar do caráter documental que o livro apresenta, como romance, supera o ocasional e o informativo, pela criação de personagens vivos, pela linguagem expressiva, pela superação das exagerações da escola naturalista.
      No melhor da obra literária de Aluísio Azevedo, nota-se a influência, quase sempre benéfica, dentro do campo de criação romanesca, de Zola e do autor de O Crime do padre Amaro, Eça de Queirós. Quando o autor parece escapar dos dois, torna-se um pobre "produtor de folhetins". (Alfredo Bosi – História Concisa da Literatura Brasileira – Cultrix – S. Paulo – 1970 – pág. 209).
      Pode-se classificar a obra de ficção do autor no seguinte quadro didático:
      Românticos:
      Uma Lágrima de Mulher (1879)
      Condessa de Vésper (1882) (com o título de Memórias de um Condenado)
      Girândola de Amores (1882) (com o título de Mistério da Tijuca)
      Filomena Borges (1884)
      A Mortalha de Alzira (1894)
      Demônios (1893) (Contos)
      Realistas
      O Mulato (1881)
      Casa de Pensão (1884)
      O Coruja (1885)
      O Homem (1887)
      O Cortiço (1890)
      Livro de uma Sogra (1895)
      Entrando para a diplomacia em 1895, encerrou definitivamente a sua carreira literária, em completo desencanto. Hoje, o que lhe dá renome, é a sua obra literária...
      Enredo de Casa de Pensão
      Amâncio (Da Silva Bastos e Vasconcelos), rapaz rico e provinciano, abandona o Maranhão e segue de navio para o Rio de Janeiro (a Corte) a fim de se encaminhar nos estudos e na vida. É um provinciano que sonha com os deslumbramentos da Corte. Chega cheio de ilusões e vazio de propósitos de estudar... A mãe fica chorosa e o pai, indiferente, como sempre fora no trato meio distante com o filho. O rapaz tinha que se tornar um homem.
      Amâncio começa morando em casa do sr. Campos, amigo do Pai, e, foçado, se matricula na Escola de Medicina. Ia começar agora uma vida livre para compensar o tempo em que viveu escravizado às imposições do pai e do professor, o implacável Pires.
      Por convite de João Coqueiro, co-proprietário de uma casa de pensão, junto com a sua velhusca mulher Mme. Brizard, muda-se para lá. É tratado com as maiores preferências: os donos da pensão queriam aproveitar o máximo de seu dinheiro e ainda arranjar o seu casamento com Amélia, irmã de Coqueiro. Um sujo jogo de baixo interesses, sobretudo de dinheiro. Naquele ambiente, tudo concorreria para fazer explodir a super-sensualidade do maranhense.
      "Ele, coitado, havia fatalmente de ser mau, covarde e traiçoeiro: Na ramificação de seu caráter e sensualidade era o galho único desenvolvido e enfolhado, porque de todos só esse podia crescer e medrar sem auxílios exteriores." (pág. 166)
      A casa de pensão era um amontoado de gente, em promiscuidade generalizada, apesar da hipócrita moralidade pregada pelo seu dono: havia miséria física e moral, clara e oculta. Com a chegada de Amâncio, a pensão passou a arapuca para prender nos seus laços o jovem, inesperto e rico estudante: pegar o seu dinheiro e casá-lo com a irmã do Coqueiro. Para alcançar o fim, todos os meios eram absolutamente lícitos. Amélia, principalmente quando da doença do rapaz, se desdobrou nos mais íntimos cuidados. Até que se tornou, disfarçadamente, sua amante. Sempre mantendo as aparências do maior respeito exigido dentro da pensão pelo João Coqueiro...
      O pai de Amâncio morre no Maranhão. A mãe chama o filho. Ele pretendo voltar, logo que terminarem os seus exames de medicina. Era preciso que o filho voltasse para vê-la e ver os negócios que o pai deixara. Mas o rapaz está preso à casa de pensão e a Amélia: este o ameaça e só permite sua ida ao Maranhão, depois do casamento. Amâncio prepara sua viagem às escondidas. Mas, no dia do embarque, um oficial e justiça acompanhado de policiais o prende para apresentação à delegacia e prestação de depoimentos. Amâncio é acusado de sedutor da moça. João Coqueiro prepara tudo: o caso foi entregue ao famigerado e chicanista Dr. Teles de Moura. Aparecem duas testemunhas contra o rapaz. Começa o enredado processo: uma confusão de mentiras, de fingimentos, de maucaratismo contra o jovem rico e desfrutável para os interesses pecuniários de Mme. Brizard e marido. Há uma ressonância geral na imprensa e, na maioria, os estudantes se colocam ao lado de Amâncio. O senhor Campos prepara-se para ajudar o seu protegido, mas Coqueiro lhe faz chegar às mãos uma carta comprometedora que Amâncio escrevera à sua senhora, D. Hortênsia. E se coloca contra quem não soube respeitar nem a sua casa...
      Três meses depois de iniciado o processo, Amâncio é absolvido. O rapaz é levado em triunfo para um almoço, no Hotel Paris.
      "Amâncio passava de braço a braço, afagado, beijado, querido, como uma mulher famosa." (317). Todo mundo olhava com curiosidade e admiração o estudante absolvido. E lhe atiravam flores, Ouviam-se vivas ao estudante e à Liberdade. Os músicos alemães tocaram a Marselhesa. Parecia um carnaval carioca.
      Em outro plano, Coqueiro, sozinho, vendo e ouvindo tudo. A alma envenenada de raiva. Em casa o destampatório da mulher que o acusava de todo o fracasso. As testemunhas reclamavam o pagamento do seu depoimento. Um inferno dentro e fora dele. Chegaram cartas anônimas com as maiores ofensas. Um homem acuado...
      Pegou, na gaveta, o revólver do pai. E pensou em se matar. Carregou a arma. Acertou o cano no ouvido. Não teve coragem. Debaixo da sua janela, gritavam injúrias pela sua covardia e mau caráter... No dia seguinte, de manhã, saiu sinistro. Foi ao Hotel Paris. Bateu no quarto II, onde se encontrava o estudante com a rapariga Jeanete. Esta abriu a porta. Amâncio dormia, depois da festa e da bebedeira, de barriga para cima. Coqueiro atirou a queima-roupa. Amâncio passa a mão no peito, abre os olhos, não vê mais ninguém. Ainda diz uma palavra: "mamãe" ... e morre.
      Coqueiro foi agarrado por um policial, ao fugir. A cidade se enche de comentários. Muitos visitam o necrotério para ver o cadáver de Amâncio. Vendem-se retratos do morto. Um funeral grandioso com a presença de políticos, notícias e necrológicos nos jornais, a cidade toda abalada. A tragédia tomou conta de todos.
      A opinião pública começa a flutuar, a mudar de posição: afinal, João Coqueiro tinha lavado a honra da irmã...
      Quando D. Ângela, envelhecida e enlutada, chega ao Rio de Janeiro, se viu no meio da confusão, procurando o filho. Numa vitrine, ela descobriu o retrato do filho "na mesa do necrotério, com o tronco nu, o corpo em sangue. Uma legenda: "Amâncio de Vasconcelos, assassinado por João Coqueiro, no Hotel Paris..."
      O Estilo da Época
      A obra de Aluísio de Azevedo que ficou na literatura brasileira é o seu romance naturalista. "Dominava a cena artística brasileira o sistema de idéias estéticas implantado pela poderosa geração de 1870, e que constituíram o complexo estilístico do Realismo-Naturalismo-Parnasianismo." (Afrânio Coutinho – Introdução à Literatura Brasileira – Rio de Janeiro – 1964 – 2ª ed.-pág. 207).
      O realismo tende para uma visão biológica do homem; o naturalismo, para uma visão patológica: um homem dominado pelo animalesco, marcado por taras e degenerecências, produto fatal da hereditariedade, uma apenas máquina sujeita às leis físico-químicas. Os greco-latinos acreditavam na fatalidade (Moira) a quem estavam sujeitos os mesmos deuses. A ciência pseudo-ciência do século XIX ensinou ao naturalistas a crença na hereditariedade. O personagem de tragédia que era escravo da fatalidade se torna escravo da hereditariedade para os naturalistas. Uma das confusões mais comuns entre eles era a da ciência com a literatura. Se o realismo nos deu um romance-documental, o naturalismo - verdadeiro laboratório – nos deu um romance-experimental, na mesma linha do Roman expérimental de Zola (1880).
      "Entendemos que um romancista deve ser ao mesmo tempo um observador e um experimentador. O observador expõe os fatos tais quais os observou, estabelece o terreno sólido em que se vão mover os personagens e acontecimentos; em seguida surge o experimentador e faz experiências, isto é, faz seus personagens se movimentarem em determinado enredo, de modo a patentear que a sucessão dos fatos é a exigida pelo determinismo das coisas estudadas." (Zola – apud Nelson Werneck Sodré – O Naturalismo no Brasil – Edit. Civilização Brasileira – Rio de Janeiro – 1965 – pág. 33).
      Nessa fidelidade a uma pseudo-realidade está o erro fundamental de um naturalista como Aluísio de Azevedo. A pressa com que realizou a sua obra romanesca – apesar do seu inegável talento – o fez fiel demais às formas e fórmulas do naturalismo a tal ponto que o romance mostre nitidamente os andaimes e as outras marcas de sua fabricação. Os personagens se movem dentro do romance como verdadeiros robôs, teleguiados por forças mecânicas, dentro do seu meio, obedientes às forças atávicas, sem nenhuma liberdade de ser e de agir. O naturalista se esqueceu de "que os sinais exteriores são apenas uma parte da realidade, não podendo a literatura, pois, pelo levantamento apenas dos dados colhidos pela observação, dos dados exteriores, reproduzir a realidade; em segundo lugar, não compreendia que a realidade humana, que é o domínio de que a literatura se ocupa, não está nos indivíduos, mas na sociedade; finalmente, que a realidade não está no patológico, no anormal, no excepcional, mas no normal, no comum, no típico." (Nelson Werneck Sodré – ib. pág. 37-38).
      Dentro do naturalismo, cabem afirmações tão dogmáticas quanto incompletas e, hoje, erradas, para uma concepção moderna do homem, como estas:
      "O romance deve ser um estudo de um curioso caso fisiológico"; "dados um homem forte e uma mulher insatisfeita, procurar neles as besta..."; "fazer em dois corpos vivos o que o cirurgião faz em cadáveres..." (Zola – Apud Nelson Werneck Sodré – ib. pág. 19). Ou: "o vício e a virtude são os produtos químicos como o açúcar e o vitríolo" (Taine); "precisamos acanalhar a arte" (Courbet) (apud id. Ib. pág. 19).
      O naturalismo está plenamente representado
      em Casa de Pensão:
      1) Desde a abertura do romance, Amâncio aparece marcado fatalisticamente pela escola e pela família: uma e outra o encheram de revolta. Por causa de um castigo justo ou injusto, "todo o sentimento de justiça e da honra que Amâncio possuía, transformou-se em ódio sistemático pelos seus semelhantes..." (Casa de Pensão – pág. 25). O leite que o menino mamou na ama negra também está contagiado e irá marcá-lo. O médico dizia: "Esta mulher tem reuma no sangue e o menino pode vir a sofrer para o futuro." (ib. pág. 28). Amâncio é uma cobaia, um campo de experimentação nas mãos do romancista. Nele o fisiológico é muito mais forte do que o psicológico. É o determinismo que vai acompanhar toda a carreira do personagem.
      2) O sentido documental e experimental do romance naturalista, renunciando ao sentimentalismo e à evasão, procura construir tudo sobre a realidade. A estória do romance se baseia num caso real, o caso do estudante Capistrano, até nos pormenores. Leiamos um resumo dos acontecimentos.
      "O emocionante caso de polícia, logo conhecido e popularizado sob a epígrafe de "Questão Capistrano", envolve dois jovens e estudantes da Escola Politécnica, antes da tragédia, grande e inseparáveis amigos: João Capistrano da Cunha e Antônio Alexandre Pereira.
      O tão debatido "Affaire Capistrano", que o povo e os jornais da época consagram, divide o público e nascem então acesas polêmicas. O carioca da época não fala noutra coisa, não discute outro assunto , não se preocupa senão com os dois processos criminais apesar de rotineiros, em que se misturam a honra de uma moça e o homicídio do seu sedutor.
      O caso principia trivialmente assim: dona Júlia Clara Pereira é modesta professora de piano, que, naquele ano de 1875, mora com os dois filhos Antônio Alexandre Pereira, estudante de engenharia, e Júlia Pereira, de 20 anos, em pequena casa da Rua Silva Manuel, nº 10. A pobre viúva baiana luta com inauditas dificuldades para prover a pequena família. As aulas de piano é que lhes mantêm as despesas da casa e dos estudos. A habitação apresenta-se em péssimo estado e resolvem alugar outra, no ano seguinte, bem maior e mais cômoda, na Rua do Alcântara, nº 71, e que, além do pavimento térreo, tem o sótão em forma de chalé.
      Como a nova moradia possui alguns quartos a mais, deliberam alugá-los, montando assim uma casa de pensão, muito comum naqueles tempos. Dessa maneira podem auferir outros lucros para os gastos sempre crescentes. Os dois primeiros pensionistas são colegas do filho: Mariano de Almeida Torres e João Capistrano da Cunha, rapazes procedentes do Paraná, tidos e haviados como de bom comportamento e acolhidos no seio da família Pereira sob o maior carinho e confiança.
      Em pouco, no convívio diário, nasce o namoro entre o estudante Capistrano e a jovem Júlia. O idílio pega fogo... Voraz concupiscência encarrega-se do resto... Uma noite – naquela de 13 para 14 de janeiro de 1876 – acontece o imprevisto: o rapaz não se contém e demanda o quarto da moça, desonrando-a às brutas, violentado-a...
      Na manhã seguinte, a jovem, entre lágrimas, conta à mãe o que lhe acontecera. A viúva não tem dúvidas: vai às falas com o moço. Este, como sói acontecer em casos desse jaez, dá um pretexto qualquer, procura adiar o compromisso do enlace para data bem remota, quando, então, reparará o dano causado. Enquanto isso, dias e meses decorrem sem nenhuma atitude do namorado, frio e indiferente ao cumprimento da palavra empenhada.
      Quando menos se espera, sai de casa e não volta mais. Some de uma vez. Todos ignoram-lhe o paradeiro. Deixa, apenas, na pensão a roupa, os livros, a mala... A mãe e o tutor da vítima apressam-se em procurar a delegacia de polícia mais próxima para a respectiva queixa. Comparecem acompanhados do advogado dr. Jansen de Castro Júnior, e exigem 50 contos de indenização pelos danos causados!
      O inquérito tem o seu seguimento natural. Concluído, é enviado a Juízo. Os jornais se encarregam de divulgá-lo num noticiário pormenorizado e profuso, enchendo colunas e colunas, dias e dias seguidos, a explorar morbidamente a curiosidade pública. A população apaixona-se pelo caso, tornado assim de repente, para conseguir fácil casamento... Outros, mais exaltados, são de opinião contrária, julgam-no digno de pena severíssima.
      O indiciado João Capistrano da Cunha, acolitado por três bons advogados, drs. Busch Varela e Duque Estrada Teixeira e conselheiro Saldanha Marinho, comparece à barra do Tribunal, no dia 17 de novembro. Figura como promotor público interino o dr. Ferreira de Oliveira, que produz veemente acusação. A colossal massa popular, que enche o salão, vibra. Contradita-se o defensor do réu, dr. Busch Varela. À réplica do promotor, respondem os outros dois patronos: dr. Duque Estrada Teixeira e conselheiro Saldanha Marinho, que conseguem a absolvição do seu constituinte, após calorosos debates, ovacionando os diversos advogados, e, à saída, prorrompe em palmas ao absolvido, carregado em triunfo pelos colegas. Oferecem-lhe ainda um banquete em regozijo, no Hotel Paris
      O desfecho tem viva repercussão na sociedade fluminense. A viúva e o irmão da vítima não se conformam com tão injustiça e iníqua sentença. Desesperado, o jovem Antônio Alexandre Pereira passa três dias pensando no que deve fazer.
      Precisa tomar atitude. A idéia fixa aflige-o, mortifica-o: necessita lavar a honra da família tão rudemente ofendida. Resolve fazer justiça com as próprias mãos. Impõe-se uma lição de mestre ao impune autor da desgraça da irmã, que chora, dia e noite, envergonhada e entre a profunda prostração.
      O acadêmico adquire uma arma de 25 cápsulas por 22$000 – uma tragédia atrai outra tragédia – e sai à procura do amigo da véspera. Encontra-o em olena na Rua da Quitanda, fronteiro ao nº 128, cerca das 10 da manhã, quando se dirige à casa do seu correspondente, um negociante da Rua de São Pedro. Pelas costas alveja-o com cinco tiros e fere-o gravemente com apenas um no pulmão esquerdo. O rapaz corre para o interior do armazém, fugindo a novo disparo e logo cai sem forças ao chão. Está morto!
      O agressor tenta, em vão, escapar, quando é preso em flagrante por Augusto César de Mascarenhas, que passa na ocasião, e entrega-o à Justiça.
      O pulmão da vítima achava-se atrofiado, podendo morrer em breve tempo, constataram os médicos na autópsia.
      A rapaziada da Politécnica exalta-se e promove uma série de homenagens ao colega morto: veste-se de luto, chora, vai incorporada ao enterro, que se transforma em apoteose pública, carregado a mão, por estudantes e políticos que comparecem concitados pela astúcia partidária de Saldanha Marinho, um dos advogados do morto. O próprio Visconde do Rio Branco, diretor da Escola, suspende as aulas por dois dias.
      O processo de homicídio corre os trâmites legais. O acadêmico Antônio Alexandre Pereira senta-se no banco dos réus a 20 de janeiro de 1877. É defendido pelo mesmo advogado que figurara no caso da irmã, o dr. Jansen de Castro Júnior. Os debates atraem mais gente que no episódio anterior do defloramento. Agora a coisa é outra: as antipatias populares, até ontem contra a família Pereira, transforma-se então em simpatias pelo assassino... O mesmo júri, que absolve o primeiro, absolve o segundo! Inocenta-o por unanimidade de votos! Também uma salva de palmas acolhe o veredictum no Tribunal. É o acusado carregado em triunfo pelos mesmos colegas, que ovacionaram o morto da véspera...
      Em rápidos traços, eis as duas tragédias que abalam o Rio de Janeiro daqueles tempos: a famosa "Questão Capistrano", que vai, sete anos depois, inspirar o romancista Aluísio Azevedo no enredo do livro a que dará a epígrafe de "Casa de Pensão".
      (Raimundo de Menezes – Aluísio de Azevedo – Uma vida de romance – Liv. Martins Editora – S. Paulo – 1958 – pág. 147 a 150).
      3) Os personagens, na sua totalidade, são retratados sob o ângulo patológico: são casos anormais.
      Amâncio aparece como um super-excitado sexualmente, condicionando proximamente pelo ambiente da casa de pensão e remotamente pelo sangue e pela educação; Mme. Brizard e Coqueiro se apresentam como gananciosos a ponto de fazerem negócio à base da cunhada e irmã; Nini sofre de crises agudas de loucura histérica, estrebuchando e caindo diante de Amâncio; Lúcia e o marido se mostram também tipos esquisitos, ela pelo sexo e ele por estranho alheamento. Amélia também se mete, de cambulhada, nessa enxurrada de sujeiras tentando um bom negócio de sexo e dinheiro... A própria D. Hortênsia, mulher do Campos, manifesta sinais de insatisfação sexual: apesar das negativas iniciais diante das propostas... Essas personagens, quase todas, poderiam mudar-se da Casa de Pensão para outro romance do autor, mais exagerado, ao sentido naturalista: O Homem. E se dariam muito bem no novo ambiente ainda mais patológico. A casa de pensão não se parece com um pequeno e confuso hospital? Os seus moradores são, em geral, verdadeiros doentes;
      4) Quebra-se o esquema romântico da vitória do bem sobre o mal, do triunfo do(s) herói(s). Tudo se mistura na vida, trigo e joio, ninguém consegue separá-los, perde-se a consciência do bem e do mal. Afinal, quem é o bom e quem é o mau? Se, até certo momento, a opinião pública esteve ao lado de Amâncio, quem nos garante que, para o final, não estaria já mudando para o apoio a João Coqueiro? Se o assassino for a julgamento, defendido pelo inteligente e chicanista Dr. Teles, certamente será também absolvido...
      Além disso, não existem ideais a que aspiram os personagens: eles ficam reduzidos ao terra a terra, aos aspectos, fisiológicos e animalescos, aos grandes egoísmos que fazem os homens sórdidos e vis. Não há, em ninguém, traço algum de grandeza, nem nos personagens principais, nem nos secundários. Essa visão negativista e materialista exclui qualquer consciência moral no julgamento dos atos e personagens. E, dentro do quadro de pensamentos e ações do casal Mme. Brizard e João Coqueiro, o que se faz é praticar o princípio de que os fins justificam os meios. Assim, o homem ficar reduzido a um amontoado de contradições, de secreções, de completo materialismo e mecanicismo. Tudo é esquematizado de acordo com uma obediência cega à lei de causalidade: ficam eliminadas as ações e reações pessoais para dar lugar às reações de massa, sem liberdade. Os personagens não se movem, são movidos e levados, cada um, para o seu desenlance.
      5) Uma técnica comum ao escritor naturalista é o abuso dos pormenores descritivo-narrativos de tal modo que a estória caminha devagar, lerda e até monótona. É a necessidade de ajuntar detalhes para se dar ao leitor uma impressão segura de que tudo é pura realidade. Essas minúcias se estendem a episódios, a personagens e a ambientes. Num episódio, por exemplo, há minúcias de tempo, local e personagens. E móveis de uma sala até os objetos mais miúdos.
      "Campos entrou no seu escritório e foi sentar-se à secretária. Defronte dele, com uma gravidade oficial, empilhavam-se grandes livros de escrituração mercantil. Ao lado, uma prensa de copiar, um copo de água, sujo de pó, e um pincel chato; mais adiante, sobre um mocho de madeira preta muito alto, via-se o Diário deitado de costas e aberto de par em par..." (pág. 13).
      Um retrato:
      "Seus olhos, pequenos e de cor duvidosa, conservavam a mesma penetração e a mesma fluidez incisiva de ave de rapina; sua boca, estreita, bem guarnecida e quase sem lábios, tinha o mesmo riso arqueado, mal seguro e frio, de quem escuta e observa. Era de altura regular, compleição ética, rosto comprido, de um moreno embaciado, pouca barba, pescoço magro, nariz agudo, mãos pálidas e secas, voz doce e cabelo muito crespo, de colorido incerto, entre castanho e ruivo. Tinha vinte e sete anos, mas aparentava, quando muito, vinde e dois..." (pág. 55, 56 – É João Coqueiro).
      Descrição da casa de pensão:
      "A casa tinha dois andares e uma boa chácara no fundo. O salão de visitas era no primeiro. Mobília antiga, um tanto mesclada; ao centro, grande lustre de cristal, coberto de filó amarelo. Três largas janelas de sacada, guarnecidas de cortinas brancas, davam para a rua; do lado oposto, um enorme espelho de moldura dourada e gasta, inclinava-se pomposamente sobre um sofá de molas; em uma das paredes laterais, um detestável retrato a óleo de Mme. Brizard, vinte anos mais moça, olhava sorrindo para um velho piano, que lhe ficava fronteiro; por cima dos consolos, vasos bonitos de louça da Índia, cheios de areia até à boca..." (pág. 96). E a descrição continua pela página seguinte.
      Ainda um outro retrato: Amélia em dia de festa:
      "E de fato Amélia nesse dia estava encantadora. Vestia fustão branco, sarapintado de pequenas flores cor-de-rosa. O cabelo, denso e castanho, prendia-se-lhe no toutiço por um laço de seda azul, formando um grande molho flutuante, que lhe caía elegantemente sobre as costas. O vestido curto, muito cosido ao corpo, enluvava-lhe as formas, dando-lhe um ar esperto de menina que volta do colégio a passar férias com a família. Era muito bem feita de quadris e de ombros. Espartilhada, como estava naquele momento, a volta enérgica da cintura e a suave protuberância dos seios, produziam nos sentidos de quem a contemplava de perto uma deliciosa impressão artística..." (pág. 97 – E a descrição continua...)
      E o tísico do quarto nº 7:
      "O homem estava muito aflito, debatendo-se contra os lençóis, no desespero da sua ortopnéia.
      A cabeça vergada para trás, o magro pescoço estirado em curava, a barba tesa, piramidal, apontando para o teto; sentiam-se-lhe por detrás da pele empobrecida do rosto os ângulos da caveira; acusavam-lhe os ossos por todo o corpo; os olhos, extremamente vivos e esbugalhados, de uma fixidez inconsciente, pareciam saltar das órbitas, e, pelo esvazamento da boca toda aberta, via-se-lhe a língua dura e seca, de papagaio, e divisavam-se-lhe as duas filas da dentadura..." (pág. 219 – A descrição continua...)
      O capítulo XVI começa com um longo e minucioso pesadelo de Amâncio...
      6) O naturalista manifesta tendência reformadoras: quando apresenta um mundo inferior, cheio de taras e doenças, com os seus personagens marcantemente anormais, a sua preocupação é a melhoria das condições sociais e geradoras de todo esse quadro clínico muito ruim. O narrador em terceira pessoa, onisciente e onipotente, de vez em quando faz seus comentários à margem.
      "O que se lança ao peito da amante desde logo arde e evapora, porque aí o fogo é por demais intenso; o que se atira ao de um estranho gela-se de pronto na indiferença e na aridez; mas, tudo aquilo que um filho semeia no coração materno, brota, floreja e produz consolações. Neste não há chama que devore, nem frio que enregele, mas um doce amornecer, suave e fecundo, como a palidez de um seio intumescido e ressumbrante de leite..." (pág. 43).
      "Assim sucede sempre aos filhos educados à portuguesa, cujos pais sentem vexames de lhes patentear o seu amor." (pág. 167)
      7) Com relação ao vocabulário o romancista naturalista manifesta preferências por palavras científicas ou pseudo-científicas na busca de exprimir-se com o máximo de exatidão. Vejamos alguns exemplos:
      "Conseguiram fazê-lo viver, mas sempre fraquinho, anêmico, muito propenso aos ingurgitamentos escrofulosos..." (pág. 29).
      "... não se contrai ao fartum insalubre das variolóides..." (190)
      "... no desespero de sua ortopnéia..." (219)
      "... na sua distanasia." (220)
      "... desde a ponta dos dedos até os bíceps" (237)
      "... boca devastada por uma anodontia horrorosa." (299)
      Aspectos Sociais
      Como em O Cortiço, Aluísio de Azevedo se torna excepcionalmente rico na criação de personagens coletivos: a casa de pensão, tão comum ainda hoje, no Brasil inteiro, tem vida, uma vida estudante, nas páginas do romance. Aluísio conhecia, de experiência própria, esse ambiente feito de tantos quartos e tantos inquilinos, tão numerosos e tão diferentes, nivelados pela mediocridade e em fácil decadência moral. O autor faz alguns retratos com evidentes traços caricaturais (a sua velha mania ou vocação para a caricatura...), mas fiéis e verdadeiros. Tudo se movimenta diante do leitor: a casa de pensão é um mundo diferente, gente e coisas tomam aspectos novos, as pessoas adquirem outros hábitos, informadas ou deformadas por essa vida comunitária tão promíscua. Aí se encontram e se desencontram, se amontoam e se separam tantos indivíduos transformados em tipos, conhecidos, às vezes, apenas pelo número do quarto. No "Cortiço" o meio social é mais baixo; na "Casa de Pensão" é médio.
      Às doenças morais (promiscuidades, hipocrisia, desonestidades, sensualismos excitados e excitantes, ódios, baixos interesses, dinheiro...) se misturam também doenças físicas (o tuberculoso do quarto 7 que morre na casa de pensão, a loucura e histerismo de Nini...). Foi o que encontrou Amâncio na "Casa de Pensão" de Mme. Brizard. Fora para o Rio de Janeiro, para estudar. E, num ambiente como esse, quem seria capaz de estudar? É verdade que o rapaz já trazia a sua mentalidade burguesa do tempo: o que ele buscava não era uma profissão, mas apenas um diploma e um título de doutor. Ele, sendo rico, não precisaria da profissão, mas, por vaidade, de um status, de um anel no dedo e de um diploma na parede. Essa mania de doutor, doença que pegou no Brasil, já foi magistralmente caricaturada em deliciosa carta de Eça de Queirós ao nosso Eduardo Prado: "A nação inteira se doutorou. Do norte ao sul do Brasil, não há, não encontrei senão doutores! Doutores com toda a sorte de insígnias, em toda a sorte de funções!! Doutores com uma espada, comandando soldados; doutores com uma carteira, fundando bancos: doutores com uma sonda, capitaneando navios; doutores com uma apito, comandando a polícia; doutores com uma lira, soltando carnes; doutores com um prumo, construindo edifícios; doutores com balanças, ministrando drogas; doutores sem coisa alguma, governando o Estado! Todos doutores..." (A Correspondência de Fradique Mendes – Lello e Irmão Edit. Porto – 1952 – pág. 235). O próprio Aluísio de Azevedo abandonou a Província para buscar sucessos na Corte (Rio de Janeiro) e, certamente também, um título de doutor...
      Que vocação tinha Amâncio para a medicina?
      "Não se trata aqui de fazer um médico, trata-se de fazer um doutor, seja ele do que bem quiser! Não se trata de ganhar uma profissão, trata-se de obter um título. Tu não precisas de meios de vida, precisas é de uma posição na sociedade." (Casa de Pensão – pág. 43). A saída de Amâncio de seu meio provincial, por necessidade de estudar, produz uma pletora no Rio de Janeiro de tantos e tão diversos tipos de estudantes, provenientes dos mais variados pontos do nosso imenso país: no Rio eles aprendem com facilidade, com verdadeiros professores, as artes não de estudar, mas de passar de ano. Coqueiro foi quem instruiu seu protegido Amâncio nos truques dos apadrinhamentos e protecionismos especiais (pistolões) para ser aprovado, apesar da maré cheia de sua ignorância.
      Como conseqüência do meio e das intenções dos donos da pensão, acontece, de modo fatalístico, a sedução de Amélia. O fato tem repercussões sociais: quase toda a classe estudantil fica a favor do estudante, vítima do meio, dos ardis de todos (Mme. Brizard e Coqueiro), da própria Amélia... dos camarões. No apoio a Amâncio estava um apoio também ao machismo, mas de ... conquistador. Amâncio aparece sempre condicionado e pré-determinado para o seu final trágico, por causa do extremo sensualismo. É o erótico que tenta conquistar até a mulher de seu protetor, o Campos. O erotismo é apontado como um dos nossos defeitos, por excesso, em Bandeirantes e Pioneiros (Paulo Prado)Sobre os excessos sexuais e suas doenças, Gilberto Freyre (Casa Grande e Senzala) faz um trocadilho muito significativo: "no Brasil, antes da civilização, tivemos a sifilização..." Mme. Brizard e João Coqueiro são apresentados ao leitor como antipáticos e condenáveis, pela sua ganância de dinheiro, pelo seu mau caráter: ambos estão comprometidos gravemente no verdadeiro negócio de vender ou alugar Amélia. Ela era o meio de arrancar dinheiro fácil do rico Amâncio. A culpa principal é, sem dúvida, a própria Amélia, pivô da tragédia. Refletindo os seus próprios problemas familiares, Aluísio Azevedo aponta também erros da educação caseira e escolar. O pai do autor o tratava com certa distância, como o pai de Amâncio que era secarrão, sem diálogo, duro em apoiar os métodos coercitivos e antipedagógicos do prof. Pires. Tanto o pai como o professor ficaram como verdadeiros espantalhos e deixaram marcas na formação do rapaz, tornando-o recalcado e hipócrita. Por seu lado, D. Ângela se mostra sempre muito submissa ao marido, à moda antiga, e muito sentimental no relacionamento com seu filho. Então, os extremos, materno e paterno, se juntam para deformar para sempre a educação de Amâncio.
      Outro fator decisivo na corrupção final do estudante é o dinheiro fácil com que ele se engolfa em farras e boêmia e se afasta dos livros. É com razão que Lúcia Miguel Pereira sintetiza toda a dinâmica do romance em duas palavras fundamentais:
      "Na Casa de Pensão, tudo gira em torno da cupidez da carne ou do dinheiro, inoculada em todas as personagens pela herança mórbida ou pela sociedade". (Prosa de Ficção – Liv. José Olympio Edit. – Rio de Janeiro – 1957 – 2ª ed. – pág. 152).
      Ainda como exemplo desse vento social que sopra por todo o romance e pelos outros melhores do autor, note-se o estudo que faz dosmovimentos de massa, as flutuações da opinião pública, a posição a favor de Amâncio e, para o fim, uma clara insinuação de que já começa a tomar partido a favor de Coqueiro e sua irmã. O autor não aprofunda esse seu estudo de psicologia de massa, mas apresenta, apesar de superficial, um quadro interessante e válido.
      Se o romance continuasse..., o leitor pode deduzir, com bastante garantia, a massa popular estaria pressionando o júri para a absolvição de João Coqueiro, por legítima defesa da honra da irmã.
      Linguagem
      Não se pode dizer que a lingua(gem) do romance é regionalista; pelo contrário, o padrão da língua usada é geral e o torneio frasal, a estrutura morfo-sintática é completamente fiel aos padrões da velha gramática portuguesa.
      Como Machado de Assis, Aluísio Azevedo também usa alguns recursos desconhecidos da língua portuguesa do Brasil, principalmente na língua oral. Assim, por exemplo, o caso da apossínclise. É uma posição especial do pronome oblíquo que não escutamos no Brasil, mas é comum até na língua popular de Portugal. São exemplos de apossínclise: "Há anos que me não encontro com o amigo." (Há anos que não me...) "Seme não engano, você está certo." Creio que este lusitanismo reflete o tempo: era moda brasileira imitar a sintaxe portuguesa. Tenho exemplos de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Martins Pena, Machado de Assis... Em Casa de Pensão essa posição pronominal é um hábito comum. Pode-se definir o fenômeno de colocação como o faz Caldas Aulete:
      "Apossínclise: intercalação de alguma ou algumas palavras entre o verbo e o pronome complemento átono, como, por exemplo: "o que lhe eu contei, em vez de: o que eu lhe contei..." (Edit. Delta S.A. – Rio – 1964 – 5ª ed. in verbete).
      O hoje esquecido gramático português, antigamente muito em voga, Cândido de Figueiredo, publicou uma obra em três volumes com este título: "O que se não deve dizer".
      Como são muitos os exemplos colhidos no romance, exemplifiquemos apenas:
      "Que se não deixasse levar pelos pândegos..." (55)
      "... o que lhe não desejo" (56)
      "Amâncio já se não lembrava" (62)
      "... porque ela se não desprendesse logo" (73)
      "São dessas coisas que se não explicam" (103)
      "... hás de ver que te não faltará nada" (104)
      "Amâncio já os não distinguia" (119)
      "... já se não preocupa" (127)
      "... já se não podia conter" (143)
      "... de tal modo que se não pode levantar da cama" (169)
      "... que se não deixasse visgar..." (205)
      "Que ela já o não deixava sair" (234)
      "Se me não engano" (334)
      O tratamento usado pelo autor também é diferente do comum no Brasil (exceto Rio Grande do Sul, por exemplo): tu em vez de você. Os personagens, quando se ratam por iguais, empregam sempre a Segunda pessoa do singular.
      "Bem, de acordo, respondeu Coqueiro, mas é preciso deixar esse tratamento de senhor. Entre rapazes não deve haver cerimônias mal entendidas; somos colegas, temos de ser amigos, por conseguinte tratemo-nos desde já por tu" (56).
      "Mesmo escrevendo o diálogo quase sempre em norma culta, Aluísio soube fixar algumas características dos níveis mais baixos..." (Dino Preti – Siciolinguística – Cia Edit. Nacional – S. Paulo – 1974 – pág. 137). Conforme a situação e o status do personagem, a linguagem desce a níveis inferiores.
      O vocabulário do autor, às vezes, soa esquisito aos nossos ouvidos. Maria de Lourdes Teixeira cita alguns exemplos:
      À página 56 encontramos esta frase: "... continuava a parolar com embófia". Ora, o substantivo embófia ou sua variante, empófia, de origem asiática e muito encontrável em frei João dos Santos, em sua obra Etiópia Oriental, não me parece usado no Brasil. Da mesma forma, o verbo aiar (gemer), particularmente caro a Castilho, e que jamais vi em nossos autores, lá está na página 63: "Amâncio, muito prostrado, mole, a virar-se de uma para outra banda, aia-va sempre". Na página 65 aparece o adjetivo retardia (empregado com freqüência por Filinto Elíseo), em lugar de retardatáriotardovagaroso. Na página 66: "o homem do lixo entrava, e saía, familiarmente, com o seu gigo às costas".
      Gigo, em vez de cesto ou cabaz, vocábulo aquele muito usado por Ramalho Ortigão nas Farpas. Na mesma página se refere a "uma escova de fato", em lugar de escova de roupa, forma aquela não brasileira e que dá azo a duplo sentido. E linhas abaixo: "encontrou uma rapariguita de alguns dezesseis anos", frase cuja construção nada tem de brasileira, parecendo antes coligida de autor português. Na página 105 o romancista menciona uma "corbelha de farinha"; isto é, a nossa familiar e nacionalíssima farinheira. Lembre-se a propósito que tal expressão, corbelha, de boa linhagem vernácula mas admitida em uso no Brasil através do francês, é encontrada em Diniz, no Hissope, e em Castilho, nas Geórgicas. Na página 121 lá está, por sinal que na boca de uma francesa – Madame Brizard – certo ditado arcaico português que se encontra na Eufrosina, de Jorge Ferreira de Vasconcelos: "por aí não irá o fato às filhoses". No clássico citado: "não vay por ahi o gato aos filhós." Logo na página seguinteAluísio emprega o substantivo godilhão, em lugar de grumo, ou qualquer outro sinônimo de uso corrente no Brasil: "formar-lhe godilhões na garganta". Na página 192 ressalta em certa frase outro vocábulo estranho e ouvidos nacionais: "A sua primeira idéia foi chamar o Pereira e mostrar-lhe a mulher no latíbulo do amante". O substantivo latíbulo, que me lembre nunca encontrado em outro autor brasileiro (e que significa "antro de pecadoesconderijo da perdição), é muito usado por Bernardes da Nova Floresta e por outros clássicos portugueses.
      (Esfinges de Papel – Edart – S. Paulo – 1966 – pág. 138).
      "A obra de Aluísio Azevedo, portanto, revela-se útil, sobretudo como documento da língua e da cultura de nossa sociedade, nas décadas de 80 e 90, ainda muito impregnadas da influência portuguesa. Além disso a rudeza dos temas que abordou nos permite o conhecimento de uma linguagem afetiva popular, que em muito contribui para a retratação dos níveis de fala de suas personagens". (Dino Preti – ib. pág. 140).
      Técnicas Narrativas
      O problema da criação de um personagem romanesco vira mistério até para o próprio autor. Criado o personagem, ninguém sabe, nem o seu criador, até onde trabalhou a sua imaginação e onde começa a simples observação da realidade circunstante. O personagem se pode identificar com esta ou aquela pessoa real? Ou nasceu totalmente da imaginação onipotente do romancista? Nem um extremo nem outro pode corresponder à realidade da criação literária
      "O ficcionista pode usar uma pessoa que conheceu como ponto de partida para a composição duma personagem, mas tendo o cuidado de evitar a fotografia servil. É justamente durante esse processo de despistamento ou então no minuto em que o autor resolve criar uma personagem sua, sua mesmo, que o computador insidiosamente começa a mandar-lhe mensagens, e o autor corre o risco de usar esses elementos com orgulho demiúrgico, convencido de que está mesmo criando do nada..." (Érico Veríssimo – Aguilar – vol. III – pág. 83). Note-se que o computador a que se refere Érico Veríssimo é o fantástico inconsciente...
      Em Casa de Pensão, o autor escolheu o seu ponto-de-vista narrativo: a terceira pessoa do singular, um narrador onisciente e onipotente, fora do elenco dos personagens. Como um observador atento e minucioso dentro das próprias fórmulas apertadas do naturalismo. No caso deste romance, Aluísio Azevedo trabalhou muito servilmente sobre os fatos absolutamente reais. (Ver Estilo de época). Temos portanto um romance à clef, romance de chave, porque os personagens, sob nomes fictícios, escondem pessoas reais. Assim podemos identificar os figurantes principais.
      Amâncio da Silva Bastos e Vasconcelos = João Capistrano da Silva, estudante, acusado de sedução. Foi absolvido.
      Amélia ou Amelita = Júlia Pereira, a moça seduzida, pivô da tragédia.
      Mme. Brizard = é uma viúva, dona da casa de pensão: D. Júlia Clara Pereira, mãe da moça e do rapaz, assassino.
      João Coqueiro = Janjão = Antônio Alexandre Pereira, irmão da moça Júlia Pereira e assassino de João Capistrano. Foi também absolvido.
      Dr. Teles de Moura = Dr. Jansen de Castro Júnior, advogado da família da moça.
      João Capistrano foi acusado como incurso nas penas do art. 222, do Código Criminal do Império: "Ter cópula carnal por meio violento ou ameaças, com qualquer mulher honesta. Penas: de prisão por três ou doze anos, e de dotar a ofendida."
      O autor toma visível posição a favor de Amâncio e contra Amélia, João Coqueiro e Mme. Brizard: (Raimundo de Menezes – Aluísio Azevedo – Uma vida de romance – Liv. Martins Edit. – S. Paulo – 1958 – pág. 151). O mesmo autor me informa que o romance já estava, em semente, em Casa de Cômodos (pág. 342).
      A narrativa não obedece a uma ordem cronológica: o cap. I coloca o leitor diante de Amâncio e Campos, já no Rio de Janeiro. Depois é que o autor volta ao Maranhão para contar alguma coisa, o que é fundamental dentro das fórmulas naturalistas, da vida e da educação do personagem. Recorda a escola e a família, o leite que mamou da ama negra, leite contaminado, a dura opressão do professor e do pai... tudo para condicionar fatalisticamente o personagem e fazê-lo chegar, sem liberdade, aonde tinha que chegar. São os truques repetidos pela escola naturalista. (Veja-se, por exemplo, o mesmo determinismo em O Missionário de Inglês de Sousa). Essa volta é uma técnica comum que hoje se chama flash back, palavra tomada de empréstimo ao cinema.
      Depois, a narrativa caminha, de modo geral linearmente e os episódios se passam só no Rio de Janeiro. Amâncio não faz viagens, planeja apenas a volta à Província: viagem que não chega a realizar pelos incidentes que o leitor conhece. Um pequeno paralelo que se fizesse entre o autor e Machado de Assis (lembrem-se de que Memórias Póstumas de Brás Cubas é da mesma data que O Mulato (1881) mostraria que Aluísio, diferente do romancista carioca, não faz descidas em profundidade na alma dos personagens. Eles se forma superficialmente sem pesquisas psicológicas, uma das características do autor de D. Casmurro. Sem desvalorizar o maranhense, pode-se afirmar que Machado de Assis realizou uma obra muito mais orgânica, até mesmo por vocação, por maior talento. Aluísio escreveu sob pressão ou opressão, enquanto tinha necessidade de sobreviver e até contrariado porque, segundo sua própria confissão, tina a vocação da pintura, do desenho, da caricatura, não da literatura. Acabada a necessidade premente de sobreviver, parou de escrever, definitivamente, engolfando-se na diplomacia.
      Como narrador fora da estória, como já foi observado em outro lugar, o autor costuma fazer algumas observações marginais, inclusive como intenções críticas, sobre educação, sobre os personagens, sobre os fatos.
      Pareceu-me feliz o corte final na narrativa para fechar o romance: não fez nenhum comentário a mais, o que seria excrescente. Já noCortiço, Aluísio Azevedo ainda acrescenta à tragédia final de Bertoleza um pequeno e inútil comentário. Terminando como terminou deixa ao leitor o trabalho de perguntar o que irá acontecer ainda, como ficarão as coisas, sobretudo a situação de João Coqueiro. Será ou não absolvido? Se os fatos reais nos dão uma resposta (o assassino foi absolvido), o romance deixa em aberto. A mãe de Amâncio também desaparece com o final do romance numa atitude indecifrável: quais foram as suas reações diante do retrato do filho morto? Indecifrável no texto da narrativa e mito fácil para o sentimento e a imaginação de qualquer leitor.
      Como um naturalista jura fidelidade à vida e à realidade, segundo as suas concepções de vida e de realidade, o final está de acordo: não há uma vitória do(s) herói(s), não há um fecho feliz. Quem é que diz que a vida obedece aos nossos desejos planos?
      Crítica
      1) "O autor começa entrando logo em cheio na ação do seu romance e, uma vez penetrando no círculo em que vivem os seus personagens, não se afasta mais deles, como que saturado de todos os elementos constitutivos do ambiente físico e moral da famosa casa de pensão, assunto do seu livro. Como trabalho de observação, o romance tem tudo quanto é lícito desejar em uma composição desta ordem. Fundando-se em um fato verdadeiro, que a cidade do rio de Janeiro presenciou há anos, compreende-se que a lógica dos caracteres mais dramáticos dessa história não podia falhar. Tendo, além disto, o romancista vivido em estabelecimentos da natureza do que descreve, estava perfeitamente habilitado a dar toda a unidade possível à vida do grupo humano que se encarregou de estudar................................"
      "A Casa de Pensão é um microcosmo: todos os elementos que o constituem, por um processo felicíssimo de cerebração inconsciente, atraem-se, repelem-se, aglutinam-se e dão, por último, uma sensação que pode muito bem ser comparada à reminiscência, em dias febricitantes e de hiperestesia mnemônica, de sucessos presenciados em alguma parte." (Obra Crítica de Araripe Jr. – M.E.C – Casa de Rui Barbosa – Rio – 1960 – vol. II – pág. 84 e 85).
      2) "Ele trouxe à nossa ficção mais justo sentimento da realidade, arte mais perfeita de sua figuração, maior interesse humano, inteligência mais clara dos fenômenos sociais e da alma individual, expressão mais apurada, em suma, uma representação menos defeituosa da nossa vida, que pretendia definir. Dos que aqui por vocação ou mero instinto de imitação demasiado comum das nossas letras, seguiram o naturalismo e se nele ensaiaram, o que mais cabalmente realizou este feito da nossa doutrina literária foi Aluísio Azevedo, com uma obra de mérito e influência consideráveis..." (História da Literatura Brasileira – José Veríssimo – Liv. Francisco Alves – Rio – 1916 – pág. 336).
      3) "Na Casa de Pensão, tudo gira em torno da cupidez da carne ou do dinheiro, inoculada em todas as personagens pela herança mórbida ou pela sociedade. Entretanto, e nisso reside a prova do talento de romancista de Aluísio Azevedo, tomados em conjunto, esses bonecos de engonço adquirem inesperada vitalidade. Se a vida interior é quase nula, a vida de relação é ativa e real. Desde que se trate de contatos superficiais, a narrativa se movimenta, ganha força e nervo... Da soma das criaturas e duas dimensões surge uma entidade nova – a casa de pensão, com os seus moradores de uma psicologia especial, pobres criaturas desenraizadas pela enxurrada da vida, provenientes dos meios os mais diversos, que adquirem uma espécie de alma comum, feita pela solidariedade negativa que as une." (Prosa de Ficção – Lúcia Miguel Pereira – Liv. José Olympio Edit. – Rio – 1957 – 2ª ed. pág. 152 – 153).
      4)" Em Casa de Pensão, realmente, há qualidades marcantes de ficcionista, e o ambiente, o das habitações coletivas, conhecido do autor, e a marca que deixa nas criaturas, também por ele experimentada, ficam excelentemente representadas.".....
      "Aluísio Azevedo é um exemplo, no naturalismo brasileiro, do escritor que trabalha constrangido pela fórmula e que vacila entre o desgregamento romântico, a que se submete demasiado facilmente, embora lamentando o fato, e o espartilho naturalista, que o deixa peado, a que obedece a contragosto." (História da Literatura Brasileira – Nelson Werneck Sodré – Liv. José Olympio Edit. – Rio – 1960 – 3ª ed. – pág. 360 – 361).
      5) "Em Casa de Pensão – cronologicamente, o primeiro grande romance de Aluísio, depois de O Mulato, o romancista marca a transição de dois ambientes: o do Maranhão, de que provinha, e o do Rio de Janeiro, a que se adaptara. Este livro, pelo aglomerado humano que esboça, é uma espécie de preparação para a experiência mais profunda e mais ampla de O Cortiço. Nele encontramos o Aluísio aprimorado, senhor da técnica da narração, mestre da fixação de tipos e caracteres, a conduzir o drama ou aventura de seus personagens com o rigor da justa medida. Não há excessos em suas páginas. O próprio desfecho que poderia parecer arbitrário, é uma transposição do caso real para o romance." (Aluísio Azevedo – Josué Motello – Agir – 1963 – pág. 11 – 12).
      6) "Em Casa de Pensão, de 1884, que firmam melhor as qualidades do escritor. Nesse romance mostra-se ele mais senhor do ofício. A apresentação dos personagens, a descrição das cenas, a evolução do enredo, são realizados com maior senso de objetividade e equilíbrio. Reveste-se de toda a sobriedade o momento em que Amâncio se apresenta a Campos, interrompendo-lhe a correspondência para o norte. Nem são destituídos de vida episódios de boêmia carioca. Muitos personagens exsudam vida, como aquele Campos ou a esposa, Hortênsia. Não se isenta, entretanto, de lacunas. Há criaturas, como João Coqueiro ou Amelinha, em cujos perfis o autor se gasta em tintas naturalistas e que acabam por se afogar no convencionalismo. Há outros, como Amâncio, de que temos a impressão de que vivem de real vida para logo em seguida sentirmos baldos de realidade." (A Literatura Brasileira – O Realismo – João Pacheco – Edit. Cultrix – S. Paulo – 1963 – pág. 135).
      7) "Não resta dúvida que a obra de Aluísio Azevedo resiste ao tempo e ao desgaste das escolas, por revelar força criadora incomum em nossa ficção e por se conjugarem nela a observação da realidade brasileira com seus problemas sociais, a experiência humana e o conhecimento artesanal. E todos esses atributos impulsionados por intensa vibração participante, bem típica não só do temperamento do autor como de sua filiação naturalista.
      Respeitadas as características de cada um e as conseqüentes diferenciações, pode-se dizer que as obras de Aluísio Azevedo, José de Alencar e Machado de Assis constituem as colunas de resistência do romance brasileiro do passado. E nessa trindade de valores o lugar ocupado pelo maranhense tem, além disso, especial significação historiográfica, sendo ele como é o tal como o concebeu Zola, com os seus postulados: a crítica da sociedade, "a ciência dos temperamentos", a anatomia dos caracteres, a patologia das paixões, a determinação exata das circunstâncias, as finalidades éticas e, de acordo com o pensamento de Eça de Queirós, os ideais de justiça e verdade."
      (Maria de Lourdes Teixeira – ibidem – pág. 139).

PARNASIANISMO

1 – CONTEXTUALIZAÇÃO

O Parnasianismo é a manifestação poética do Realismo, embora ideologicamente não tenha todos os pontos de contato com os romancistas realistas e naturalistas. É uma estética preocupada com a “arte pela arte”, com seus poetas à margem das grandes transformações do final do século XIX e início do século XX.
Sua denominação é uma alusão às antologias publicadas na França a partir de 1866 com o título Le Parnase Contemporain. O Parnasianismo ocorreu apenas no Brasil e na França, não tendo sido cultivado em outros países. A origem da palavra Parnasianismo associa-se ao Parnaso
grego, segundo a lenda, um monte da Fócida, na Grécia central, consagrado a Apolo (deus do sol da beleza) e às musas, era freqüentado por poetas em busca de inspiração.
A escolha do nome já comprova o interesse dos parnasianos pela tradição clássica. Acreditavam que, assim, estariam combatendo os exageros de emoção e
fantasia do Romantismo e, ao mesmo tempo, garantindo o equilíbrio desejado, por se apoiarem nos modelos clássicos. A presença dos elementos clássicos na poesia parnasiana não ia além de algumas referências a personagens da mitologia e de um enorme esforço de equilíbrio formal. Por se afirmar que não passava de um verniz que revestiu artificialmente essa arte, como forma de
garantir-lhe prestígio entre a camadas letradas do público consumidor brasileiro. Apesar de contemporâneos, o Parnasianismo difere do Realismo e do Naturalismo.
Enquanto esses movimentos se propunham a analisar e a compreender o homem, o Parnasianismo se distancia da
realidade e se volta para si mesmo. Defendendo o princípio da “arte pela arte”, os parnasianos achavam que o objetivo
maior da arte não é tratar de problemas humanos e sociais, mas alcançar a “perfeição” em sua construção: rimas, métrica, imagens, vocabulário seleto, equilíbrio e contenção emocional. A primeira publicação considerada parnasiana é a obra Fanfarras
(1882), de Teófilo Dias, contudo, o
papel de implantação do ideário Parnasianismo coube à tríade formada por
Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto
de Oliveira.

2. CARACTERÍSTICAS DO PARNASIANISMO

a) Preocupação formal: Revela-se na busca da palavra exata ou preciosismo vocabular. Há preferência por sonetos e versos decassílabos ou alexandrinos (com versos de 12 sílabas poéticas); por rimas ricas ou
raras; e por chaves de ouro – versos que concluem a idéia com um belo efeito. Todo esse rigor formal evidencia o tecnicismo dos poetas parnasianos.

b) Contenção lírica: A arte poética deve estar subordinada à razão e a objetividade; a razão predomina sobre a emoção, pois esta última pode comprometer a eficiência técnica do poeta, logo, nada de temas intimistas, confessionais. Vale ressaltar que alguns
poetas parnasianos deixam-se trair por uma índole romântica.

c) Arte pela arte: O parnasiano não admite o caráter utilitário e de engajamento da arte. O único compromisso assumido é com a beleza que, para eles, está na elaboração formal. Por isso, os poetas se isolam na “torre de marfim”, alienando-se da realidade de seu próprio tempo.

d) Preferência por temas descritivos: A poesia toma
como temas paisagens, vasos, estátuas, templos, cenas históricas. Esse aspecto faz com que haja uma aproximação entre a poesia e as artes plásticas. São comuns comparações entre o fazer poético e o de um escultor, ou pintor, por exemplo. Os temas universais
como o amor, a beleza, as artes, o tempo são
tratados de maneira impessoal.

e) Revalorização da cultura clássica: “Na concepção parnasiana, são freqüentes as metáforas inspiradas em lendas e histórias da Antigüidade Clássica, novamente, a tradição greco-latina torna-se o ideal de beleza, distinguindo-se os parnasianos dos românticos.”

f) Metapoesia (Metalinguagem) Falar da criação poética, da própria poesia artísticas:

g) É importante ressaltar é comum encontrarmos o predomínio da ordem indireta (hipérbato).


APRECIAÇÃO DOS TEXTOS.

I - Profissão de Fé – O Labor Poético.
[...]
Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.

Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.

Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.

Corre; desenha, enfeita a imagem,
A idéia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.

Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.
Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:

E horas sem conta passo, mudo,
O olhar atento,
A trabalhar longe de tudo
O pensamento.
           
Notas de Vocabulário.
ourives: artesão que fabrica jóias com metais e pedra preciosas.
Carrara: região da Itália rica m mármore.
ônix: pedra com variedade de cores, inclusive a cor preta.
cinzel: instrumento de aço, com uma das extremidades
cortantes, usado por escultores.
cingir: rodear, colocar em torno de.
altear: elevar, tornar alto.
engastar: encravar em ouro, prata etc.
rubim: ou rubi, pedra preciosa vermelha.
lavor: trabalho manual de caráter artístico e artesanal.
Becerril: nome de um famoso artesão.
perícia: habilidade.

I - Via Láctea (soneto XIII) –

 Amor e Distanciamento.

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

II - Nel Mezzo Del Camin

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...
E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.
Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece.
Nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face, e tremo.
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo

III – Satânia – Sensualidade.

Nua, de pé, solto os cabelos às costas
Sorri. Na alcova perfumada e quente,
Pela janela como um rio enorme
Profusamente a luz do meio-dia
Entra e se espalha palpitante e viva.
Entra, parte-se em feixes rutilantes,
Aviva as cores das tapeçarias,
Doura os espelhos e os cristais inflama.
Depois, tremendo, como a arfar, desliza
Pelo chão, desenrola-se, e, mais leve,
Como uma onda vaga preguiçosa e lenta
Vem lhe beijar a pequena ponta
Do pequenino pé macio e branco.
Sobe... cinge-lhe a perna longamente;
Sobe... – e que volta sensual descreve
Para abranger todo o quadril! – prossegue,
Lambe-lhe o ventre. abraça-lhe a cintura
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca,
E antes de se ir perder na escura noite,
Na densa noite dos cabelos negros,
Pára, confusa, a palpitar diante
Da luz mais bela dos seus grandes olhos.
E aos mornos beijos, às carícias ternas
Da luz, cerrando levemente os cílios,
Satânia os lábios úmidos encurva,
E da boca na púrpura sangrenta
Abre um curto sorriso de volúpia...

Notas de Vocabulário

alcova: quarto de dormir;
rutilante: muito brilhante, resplandecente;
arfar: ansiar, ofegar;
túmido: saliente, proeminente; espádua: ombro;
recôncavo: cavidade funda; gruta;
coral: cor vermelho-amarelada, característica das colônias
de coral;
Satânia: feminino de Satã: o demônio, o tentador;
volúpia: grande prazer dos sentidos.

Exercícios

TEXTO 1

Pixinguinha
Tu és divina e graciosa, / Estátua majestosa do amor / por Deus esculturada /e formada com ardor / da alma da mais linda flor, / de mais ativo olor, / que na vida é preferida pelo
beija-flor. / Se Deus me fora tão clemente
aqui neste ambiente de luz, / formado numa tela deslumbrante e bela, / teu coração junto ao meu lanceado / pregado e crucificado sobre a rosa cruz / do arfante peito seu. / Tu és a forma ideal, / estátua magistral, oh! Alma perenal do meu primeiro amor.

TEXTO 2

SINFONIA

Meu coração, na incerta adolescência, / outrora, Delirava e sorria aos raios matutinos / Num prelúdio incolor, como o
allegro da / aurora,Em sistros e clarins, em pífanos e sinos. / Meu coração, depois pela estrada sonora / Colhia a cada passo os amores e os hinos, / E ia de beijo em beijo, em lasciva demora, / Num voluptuoso adágio de harpas e violinos. / Hoje, meu coração, num scherzo de ânsias, / Arde em flautas e oboés, na inquietação da tarde, / E entre esperanças foge e entre saudades erra ... (...)

O texto 1 é a letra de uma canção popular de Pixinguinha, gravada no início do século XX; o texto 2 é um poema parnasiano de Olavo Bilac, do século XIX. Apesar do tempo que os separa, o texto 1 aproxima-se do texto 2 pelo registro do seguinte aspecto:

a) mal-do-século e espiritualismo.
b) nativismo e bucolismo.
c) uso de palavras raras.
d) referências à mitologia.
e) objetividade e racionalismo.

 
“Torce, aprimora, alteia, lima 
A frase; e, enfim, 
No verso de ouro engasta a rima 
Como um rubim.
Quero a estrofe cristalina, 
Dobrada ao jeito 
Do ourives, saia da oficina 
 Sem um defeito”.
                                        (Olavo Bilac, “Profissão de Fé”, Poesias)
2. (FUVEST) Nos versos acima, a atividade poética é comparada ao lavor do ourives, porque, para o autor: 
a) a poesia é preciosa como um rubi; 
b) poeta é um burilador; 
c) na poesia não pode faltar a rima; 
d) o poeta não se assemelha a um artesão; 
e) o poeta emprega a chave de ouro.
3. (FUVEST) Pode-se inferir do texto acima que, para Olavo Bilac, o ideal da forma literária é: 
a) a libertação 
b) a isometria 
c) a estrofação 
d) a rima 
e) a perfeição
4. (FUVEST)  Dentre as seguintes passagens, extraídas de poemas de outros autores, assinale aquela que pode ser considera-da uma reiteração da proposta contida no fragmento de “Profissão de Fé”. 
a) “Este verso, apenas um arabesco / em torno do elemento essencial - inatingível”. 
b) “Assim eu quereria o meu último poema / Que fosse terno dizendo as coisas, mais simples e menos intencionais” 
c) “Musa (...) dá-me o hemistíquio d’ouro, a imagem atrativa,/  rima (...) / a estrofe limpa e viva” 
d) Mundo mundo vasto mundo,/ se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução” 
e) “Catar feijão se limita com escrever: / joga-se os grãos na água do alguidar / e as palavras na folha de papel”
5. (FUVEST)  Indique, dentre os versos abaixo, aquele que, sob o ponto de vista da métrica, tem a mesma contagem de sílabas do verso: 
Do ourives, saia da oficina: 
a) “A natureza apática esmaece” 
b) “Minha terra tem palmeiras” 
c) “Dobra o sino... soluça um verso de Direceu...” 
d) “Não morrrerás, Deusa sublime” 
e) “São Paulo! comoção de minha vida...”
6. (UF-ES) O ideal parnasiano do culto da “arte pela arte” significa que o objeto do poeta é criar obras que expressem: 
a) um conteúdo social, de interesse universal. 
b) a noção do progresso de sua época. 
c) uma mensagem educativa, de natureza moral. 
d) uma lição de cunho religioso. 
e) o Belo, criado  pelo perfeito uso dos recursos estilísticos.
7. (CFET-PA) Todas as afirmações abaixo estão corretas, com exceção de: 
a) O Parnasianismo é a manifestação poética do Realismo,  mais voltada  para o concreto.
b) Os parnasianos assumiram o sentimentalismo quanto à observação  da realidade, pregando uma atitude pessoal. 
c) Os parnasianos, negando a emoção, cultuam a Razão e revalorizam a Antigüidade Clássica. 
d) O Parnasianismo é uma estética preocupada com a arte pela arte, a poesia pela poesia.
e) Os parnasianos fixam-se na observação de regras poéticas e têm, por isso, uma linguagem rebuscada e artificial.
8. (UF-PA) À subjetividade romântica os parnasianos contrapuserem a impessoalidade objetiva; Bilac, parnasiano por exce-lência, por vezes foge do rigorismo objetivista de sua escola como, por exemplo, nos versos em que o eu do poeta se manifesta claramente. É o que se vê em: 
a) Fernão Dias Paes Leme agoniza. Um lamento / Chora largo, a rolar na longa voz do vento. 
b) Pára! Uma terra nova ao teu olhar fulgura! / Detém-te! Aqui, de encontro a verdejantes plagas. 
c) E eu, solitário, volto a face, e tremo, / Vendo o teu vulto que desaparece. 
d) Chega de baile. Descansa! / Move a ebúrnea ventarola. 
e) E ei-la, a morte! E ei-lo, o fim! A palidez aumenta; Fernão Dias se esvai, numa síncope lenta.
9.  (UM-SP) Assinale a alternativa que não se aplica à estética parnasiana. 
a) predomínio da forma sobre o conteúdo. 
b) tentativa de superar a sentimento romântico. 
c) constante presença da temática da morte. 
d) correta linguagem, fundamentada nos princípios dos clássicos. 
e) predileção pelos gêneros fixos, valorizando o soneto.


Outros Poemas


A velhice

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...



O homem, a fera e o inseto, à sombra dela
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.


Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,


Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!


Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!


Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,


Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Um beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,
Ou talvez o pior...Glória e tormento,
Contigo à luz subi do firmamento,
Contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
Queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
E do teu gosto amargo me alimento,
E rolo-te na boca malferida.


Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
Batismo e extrema-unção, naquele instante
Por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-te o ardor, e o crepitar te escuto,
Beijo divino! e anseio, delirante,
Na perpétua saudade de um minuto...